LEITURINHA - A esperança apesar da dor
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de maio de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Abrir mão das próprias vontades e desejos não é algo fácil. É sempre dolorido. Ainda mais quando somos jovens e queremos abraçar a vida de maneira incondicional. É como se o mundo fechasse suas portas justamente no momento em que queremos todas as portas abertas e escancaradas.
Artur, personagem de ''A Esperança Por Um Fio'', romance juvenil do escritor gaúcho Menalton Braff, enfrenta uma situação assim. De uma hora para outra, precisa abrir mão de tudo que queria e desejava. E se ajustar nessa perda, torna-se uma jornada longa e dolorida.
Lançado pela Editora Ática, o romance é narrado pelo próprio Artur, com suas reflexões interiores e explosões externas. O drama do garoto começa no dia em que, inesperadamente, o pai é vítima de um aneurisma cerebral e entra em coma, sobrevivendo vegetativamente com ajuda de aparelhos numa UTI de hospital. Os médicos são categóricos em afirmar que não sabem se um dia ele sairá do coma.
A primeira coisa que assusta Artur, filho único, é a aparente frieza da mãe diante do estado do pai. A segunda, e mais devastadora, aparece nas dificuldades financeiras. Mãe e filho precisam mudar para uma pequena cidade, onde familiares podem oferecer algum auxílio.
Assim, de uma hora para outra, o adolescente perde seu grupo de amigos, os bens materiais, e vê todos seus desejos de futuro destruídos. Nessa nova vida, precisa a começar a trabalhar como adulto e, revoltado com a situação, acaba abandonando a escola.
''A Espera Por Um Fio'' é a primeira incursão de Menalton Braff na literatura juvenil. Professor de literatura no ensino médio, escreveu bons livros destinado ao público adulto como ''À Sombra do Ciprestes'' (contos) e ''Que Enchente me Carrega?'' (romance).
Embora trabalhe com um tema recorrente na literatura juvenil e infanto-juvenil brasileira - a persistência na esperança acompanhada de um final feliz - o romance de Braff possui algumas particularidades. Uma delas estaria na narrativa não linear que utiliza, mesclando passado e presente, acompanhando o fluxo de pensamentos e reflexões de Arthur, o narrador do romance. Outra estaria no fato de colocar num peso equivalente nas lágrimas das dores e no grito de rebeldia.
''A Esperança Por Um Fio'' é uma história sobre a esperança. E como tal, necessita de um final feliz que lhe confira sentido. Chega a tocar no assunto da eutanásia mas a partir de uma discussão superficial. Tudo indica que o aprendizado de Artur, ao longo de sua percepção das coisas, pode ser encarado como um sentido mais amplo.
SERVIÇO:
''A Esperança Por Um Fio'' de Menalton Braff, ilustrações de Lúcia Brandão, Editora Ática, série Sinal Aberto, 144 páginas, R$ 13,90.


