LEITURINHA - A arma da enganação
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de agosto de 2003
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Com uma boa conversa o sujeito é capaz de vender suspensório para cobra. Com uma boa lábia, tem gente que passa a ser aquilo que não é, ter aquilo que não possui, saber aquilo que desconhece e outras coisas mais.
Parece ser extremamente fácil cair na lábia de alguém. E depois de passar por situações como essa, podemos nos perguntar: o verdadeiro imbecil é aquele que é enganado ou aquele que engana?
O escritor carioca Lima Barreto (1881 - 1922), que gostava de realizar críticas humoradas do comportamento dos brasileiros, transformou esse assunto num conto que vem seduzindo leitores ao longo dos anos. Trata-se de ''O Homem Que Falava Javanês'', uma história engraçada em que um homem consegue dinheiro e poder através do engodo.
Escrito há mais de 90 anos, ''O Homem que Falava Javanês'' acaba de ganhar uma nova edição, voltada ao público infanto-juvenil, pelas mãos da editora Cosac & Naify. Com belas ilustrações de Odilon Moraes, fala sobre como os desonestos e desleais ganham notoriedade, sendo até mesmo cultuados como heróis, e os honestos e éticos apodrecem nas dificuldades e no esquecimento. Algo muito triste.
Lima Barreto narra a história de um homem que, sem trabalho, decide tentar um emprego de professor de javanês (língua falada na ilha de Java, localizada na Oceania) que vê num anuncio de jornal. Sem saber uma única palavra em javanês, consegue o emprego. Vendo que se ninguém conhece o javanês, percebe que pode ludibriar a todos com sua cara-de-pau e malandragem.
Rapidamente o personagem torna-se uma celebridade, entra para a carreira diplomática e passa representar o Brasil em eventos internacionais. Respeitado pelo cargos que ocupa, um verdadeiro doutor da arte de ludibriar, passa a exercer influência política atingindo glória, prestígio e dinheiro.
Pode até parecer um filme a que ainda assistimos hoje em dia, ou quem sabe um noticiário de televisão. Na realidade, Lima Barreto (mais conhecido como autor de ''Triste Fim de Policarpo Quaresma'') ironiza o procedimento que algumas pessoas utilizam para tirar proveito de outras, ou mesmo de toda uma população. E o poder conferido a alguém que aparenta deter algum conhecimento é, em várias situações, uma forma de ocultar a ignorância de quem confere tal poder. Em outras palavras, a ignorância é um estrada de mão dupla.
Serviço:
- ''O Homem Que Sabia Javanês'' de Lima Barreto, ilustrações de Odilon Moraes, Cosac & Naify Edições, coleção Dedinho de Prosa, capa dura, 32 páginas, R$ 27,00.


