Existe gente de todo jeito. Gente magra, gente gorda. Gente baixa, gente alta. Gente branca, gente negra. Gente antipática, gente simpática. Gente careca, gente cabeluda. Gente de perna curta, gente de braço comprido.
Também existe gente bonita e gente feia. Foi isso que um menino chamado Fabito percebeu quando se olhou, pela primeira vez, no espelho. A mãe e o pai viviam chamando-o de ''fofinho'', ''bonitinho'', ''lindinho'', mas neste dia percebeu que era feio.
Não foi fácil Fabito reconhecer que era feio. Na escola sempre aparecia alguém realizando a fatal e maldosa pergunta brincalhona: ''Você chupou limão ou está do avesso?''
Claro que o garoto ganhou uma montanha de apelidos. Coisas nada agradáveis como ''cara de morcego'', ''panqueca amassada'', ''placenta ambulante'' e ''filhote de cruz-credo''. A lista enorme ficou a cargo da imaginação do pessoal da escola.
Todo mundo sabe que apelido é moeda com suas duas faces. Existem os apelidos carinhosos, não podemos esquecer. Mas também existem os apelidos mais chatos da face da terra, aqueles que deixam as pessoas profundamente chateadas. Esse era o caso de menino.
A história de Fabito é narrada pelo poeta gaúcho Fabrício Carpinejar em ''Filhote de Cruz-Credo'', livro infantil lançado pela Editora Girafinha com ilustrações de Rodrigo Rosa. Retrata a história de um menino que precisa aprender como se relacionar com os apelidos mais humilhantes que recebe. A história de alguém que precisa aprender a não se sentir o sujeito mais feio do mundo.
Fabito nunca tinha se sentido feio até o dia que viu, no espelho, que era feio. Então, a partir desse dia, passa a se sentir feio. Seu grande desafio torna-se entender como as coisas funcionam, o que fazer e como agir diante das gozações e das humilhações.
A primeira reação de alguém envergonhado da própria situação, bem como da situação que lhe é imposta, caminha na direção do auto isolamento. A primeira tentativa de resolver os problemas. A segunda tentativa, que surge depois, passa a ser o enfrentamento dos problemas. De preferência sem a criação de monstros maiores do que as coisas realmente são.
Em ''Filho de Cruz-Credo'', Fabrício Carpinejar apresenta de maneira bem humorada e biográfica como alguns dramas que atormentam meninos e meninas são passíveis de algum tipo de solução. Nada muito fácil, é sempre bom lembrar. E quando o drama se apresenta como insolúvel, basta pensar algo nunca pensado, inventar algo nunca inventado. Algo muito próximo da sinceridade.

Serviço:
- 'Filhote de Cruz-Credo - A Triste História Alegre de Meus Apelidos' de Fabrício Carpinejar, ilustrações de Rodrigo Rosa, Editora Girafinha, 40 páginas, R$ 27,00.

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