O que acontece dentro de um corpo humano que possui os dois sexos, masculino e feminino? O que acontece do lado de fora de um corpo que é tanto homem quanto mulher? Como um corpo como esse consegue se relacionar com outros corpos e sociedades fundamentadas em ideias de sexos bem definidos? De que maneira o social e o familiar se relacionam com alguém que possui dois sexos em vez de apenas um?
As indagações sobre essas questões podem se estender por páginas e páginas sem chegar a nenhuma resolução conclusiva, nenhuma logicamente definitiva. No romance "Middlesex", o escritor norte-americano Jeffrey Eugenides amplia essas questões que não podem ser respondidas com exatidão para uma típica saga familiar de gerações. Quatro gerações vivendo sob o teto das invisíveis consequências genéticas do amor.
Conhecido no Brasil pelos romances "As Virgens Suicidas" (transformado em filme por Sofia Coppola) e "As Tramas de um Casamento", Jeffrey Eugenides coloca suas melhores qualidades literárias em "Middlesex", que pode ser considerada sua grande obra.
O grande mérito de Jeffrey Eugenides em "Middlesex" está com colocar dois livros em apenas um sem que a distinção entre um e outro seja visível. De um lado a história de uma família grega que foge do país natal (devido à guerra com os turcos no inicio do século 20) e se instala na cidade industrial de Detroit, nos Estados Unidos. De outro, uma menina que nasce nessa família duas gerações depois, e precisa viver com o fato de ser hermafrodita. As relações com a mitologia grega são extensões naturais dos dois focos narrativos que assumem uma única forma.
Tudo começa quando dois jovens irmãos, que vivem numa pequena aldeia da Grécia, se apaixonam após a morte dos pais. O surgimento da paixão coincide com a guerra, a invasão do exército turco na região. Para sobreviver, o casal foge para os Estados Unidos, onde reside uma prima.
A fuga limpa o passado dos dois como irmãos, e o casal passa a viver como gente comum na cidade de Detroit, onde germina a indústria automobilística com seu rebanho de operários. Do casamento, nasce um casal de filhos. E um dos filhos, quando atinge a juventude se casa com uma prima. Dessa relação nasce mais um casal de filhos. E justamente a criança (chamada Calíope) que nasce como menina, na adolescência se descobre hermafrodita e precisa escolher se é um menino ou uma menina. Também precisa lidar com essa escolha na família, na sociedade, na cultura, na religião e na medicina. É justamente essa menina/menino que narra toda a história com uma sensibilidade abrangente.
O foco escolhido por Jeffrey Eugenides em "Middlesex está fundamentado diretamente na contemporaneidade. Há a fantasia da mitologia, há as crenças religiosas, há as lendas culturais do destino, mas também há, com mais firmeza, a ciência genética. Pelo fato de viver numa época de descobertas da medicina, Calíope recebe um diagnóstico médico, científico, não imaginativo.
O elemento mais interessante é que, apesar dessa competição entre medicina e mito, o narrador (que ao mesmo é narradora) realiza uma terceira escolha. Sua percepção passa a ser a de que não precisa ser unicamente homem ou mulher, pode ser ambos. E que é a sociedade, a família, o mundo e até os amores que exigem uma definição. Nada mais contemporâneo, a intersexualidade em sua multiplicidade de céus e infernos.
Ganhador do prêmio Pulitzer de 2003, "Middlesex" é uma obra íntima e, ao mesmo tempo, estranha. Promove a união do íntimo e do estranho de maneira exemplar. Pode ser lida pela avó, pelo tio, pela mãe, pelo neto. É capaz de revelar que a medicina não pode consertar tudo. Há sensações e sentimentos que não se enquadram naquilo que a ciência conhece ou domina. A vida antecede tudo, principalmente aquilo que não sabemos. E quando sabemos demais, não vivemos.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA<br>Dois em um
| Foto: O autor coloca suas melhores qualidades


Serviço:
"Middlesex"
Autor – Jeffrey Eugenides
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Christian Schwartz
Páginas – 576
Quanto – R$ 59,90 e R$ 39,90 (e-book)





Fragmento:

Socialmente sou um homem. Uso os banheiros dos homens. Possuo características sexuais secundárias de um homem, menos uma: minha incapacidade de síntese da dihidrotestosterona me torna inume à calvície. Passei mais da metade da minha vida como um homem e, a essa altura, tudo já se tornou natural. Quando Calíope emerge, é parecido com aquelas dificuldades de fala de certas crianças. Súbito, ela aparece, para um trejeito de arrumar o cabelo, ou conferir as unhas. É como estar possuído. Cal surge dentro de mim, usando minha pele como se fosse um vestido largo. Enfia as mãozinhas nas mangas folgadas de meus braços. Com os pezinhos de chimpanzé, entra pelas minhas pernas como se fossem calças. Na calçada, sinto seu jeito de andar tomar conta de mim, e o movimento traz de volta uma espécie de emoção, uma simpatia desolada e mexeriqueira pelas meninas que vejo voltando da escola. Os cabelos de Calíope fazem cócegas atrás do meu pescoço. Sinto-a pressionar com hesitação meu peito para ver se alguma coisa está acontecendo ali. O fluido doentio do desespero adolescente que corre em suas veias transborda para as minhas. Mas aí, tão rápido quanto veio. Ela vai embora, minguando e se dissolvendo dentro de mim.

(Fragmento de "Middlesex", de Jeffrey Eugenides.)
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