Da mesma maneira como algumas pessoas levam seus cachorros para passear por tardes ensolaradas, outras são capazes de levar coisas mais exóticas. Como um cérebro, por exemplo. Não o próprio cérebro, mas um outro, conservado em formol dentro de um vidro de compota. Algo como levar, depois de morto, o pensamento para conhecer novas paisagens, sentir novos ares e, quem sabe, pegar um sol.
Pode parecer estranho, mas foi isso que um patologista norte-americano chamado Thomas Harvey fez. Colocou um vidro com um cérebro dentro na mochila e caiu na estrada cortando os Estados Unidos de costa a costa. A coisa pode parecer ainda mais estanha se o cérebro em questão pertencer ao físico Albert Einstein (1879 - 1955), criador da famosa Teoria da Relatividade.
Esse episódio realmente ocorreu, ou pelo menos parece ter acontecido. Está registrado no livro do jornalista Michael Paterniti, ''Conduzindo o Sr. Albert'', lançado pela Editora Companhia das Letras. Mesclando elementos de uma grande reportagem jornalística com pitadas ficcionais, o autor narra a história do homem que realizou a autópsia de Einstein logo após seu falecimento, em 1955. E de quebra, apresenta detalhes da vida do próprio cientista.
Para entender melhor o caso, é necessário voltar ao ano de 1955, quando Einstein morreu e Thomas Harvey, por completo acaso foi o patologista responsável pela autópsia do corpo. Considerando tratar-se de um dos maiores gênios do século, Harvey teve o ímpeto de subtrair o cérebro do físico com o objetivo de realizar um estudo posterior, sem nenhuma programação ou autorização.
O caso foi extremamente polêmico, pois pairou sobre o patologista a imagem de ladrão do ''maior cérebro do mundo''. Tanto a família, pela comoção do momento, como as entidades científicas, não conseguiram dar conta do fato. Assim, o cérebro de Einstein ficou nas mãos de um homem que se auto proclamou detentor da parte mais valorizada do corpo do gênio. Poderia ter ganho rios de dinheiro vendendo partes do órgão, ou mesmo tornar-se um grande pesquisador.
Assim, adotou a missão de proteger um cérebro conservado em formol como o grande sentido de sua existência. O curioso é que, em posse do pedaço mais valioso de Einstein, uma espécie de talismã, sua vida entrou em total decadência. Perdeu família e o emprego. Precisou trocar de profissão para sobreviver. Ao longo de 40 anos não concluiu nenhuma pesquisa científica envolvendo a massa cinzenta do físico. Ou seja, a posse de uma mente genial foi-lhe agourenta.
Em ''Conduzindo o Sr. Albert'', Michael Paterniti narra sua aventura em cruzar o país, na condição de motorista de Thomas Harvey, que tinha a intenção mostrar o cérebro de Einstein para a neta do cientista após 40 anos de sua morte. Dessa maneira, no porta-mala segue os miolos do cientista e nos bancos dianteiro um jovem e um velho tentando conviver com os dramas pessoais de cada um.
Trata-se de uma história real que, em vários momentos, beira o absurdo onde a realidade parece muito próxima da ficção. E até mesmo o dramático da situação, banhado pelo absurdo, toca a face do cômico. A idéia de que a mente humana reside apenas na massa cinzenta, que rege a grande maioria das personagens do livro, entra em total colapso ao longo da narrativa, demonstrando que o fetiche do poder cerebral é capaz das coisas mais bizarras.
Um das abordagens de Paterniti, em relação a figura de Albert Einstein, está em desmitificar sua figura de grande pacifista. Através de documentos, exemplifica a contradição do cientista que tinha uma postura declarada contra qualquer tipo de guerra em suas entrevistas e discursos. Ao mesmo tempo que criticava a ciência a serviço da bomba atômica que seus cálculos teóricos as ajudaram a construir trabalhava como consultor do exercito americano no sentido de criar armas de guerra.
Mas o grande personagem de ''Conduzindo o Sr. Albert'' permanece sendo Thomas Harvey, uma figura simples que se tornou escravo de uma objeto - no caso o cérebro de Einstein - e percebe isso apenas no final da vida. Ou seja, aquilo que a princípio seria uma dádiva para ele, transforma-se num verdadeiro inferno. Algo ironicamente humano.
SERVIÇO:
- ''Conduzindo o Sr. Albert - Uma Viagem Pelos Estados Unidos com o Cérebro de Einstein'' de Michael Paterniti, Editora Companhia das Letras, tradução de Rosaura Eichenberg, 270 páginas, R$ 38,00.

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