LEITURA Uma estranha familiaridade
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de janeiro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Mês passado foi anunciado o nome de Miguel Sanches Neto como vencedor do prêmio Cruz e Sousa de 2002, um dos mais concorridos prêmios literários brasileiros não tanto pela tradição, mas pelo valor em dinheiro que entrega aos ganhadores, R$ 80 mil.
Muita gente torceu o nariz ao saber da notícia, principalmente os mil e um concorrentes. Não é o caso de saber se o escritor, professor e crítico literário paranaense, nascido em Bela Vista do Paraíso, mereceu ou não o prêmio. O que interessa é que sua obra vencedora, ''Hóspede Secreto'', acaba de ser publicada pela FCC Edições.
Trata-se do primeiro livro de contos de Sanches Neto, que até então havia se aventurado apenas pela poesia (''Inscrições a Giz'') e pelo romance (''Chove Sobre Minha Infância''). O resultado é uma surpresa agradável. São histórias que resgatam a envolvente vitalidade do gênero dentro da história da literatura brasileira, principalmente aquela produzida a partir da década de 70.
Com uma narrativa simples e direta, a maioria dos contos de ''Hóspede Secreto'' trabalha com um universo praticamente esquecido pelos novos contistas brasileiros: o universo de transição do ambiente rural para o urbano, um fenômeno que ainda encontra terras férteis na cultura brasileira. Isso porque o cenário extremamente urbano vem dominando a maioria da produção dos contistas.
Os contos focalizam elementos do interior do Paraná não do ponto de vista bucólico, mas curiosamente de um ponto de vista urbano. Ou melhor, focaliza as sobras que foram deixadas pelo caminho por homens que trocaram o campo pela cidade. São personagens urbanos que desejam apagar por completo o fio que os ligam ao campo, ou mesmo reaver esse fio perdido em algum ponto do passado.
Isso fica claro em três textos: em ''O Herdeiro'', onde o filho volta à fazenda do pai, após décadas de ausência, para realizar enterro do velho; em ''No Centro de Algo'', onde um casal procura se desfazer de uma fazenda recebida como herança para viver definitivamente as coisas da cidade; e em ''O Hóspede Secreto'', onde uma mulher cria um galo de estimação em seu apartamento e é obrigada a se desfazer do bicho devido a reclamações dos vizinhos, incomodados com seu canto matinal.
Mas dos sete contos que integram o livro, há também aqueles que seguem caminhos diferentes, mergulhando no interior das sombras. Entre elas, a sombra do desejo. É o caso de ''Caça às Lagartas'', um história que realiza uma intrincada relação entre a prática de se eliminar lagartas bichos considerados nojentos mas que se transformam em lindas borboletas e o desejo sexual. Com sutileza, consegue transmitir uma sensação perturbadora que ao mesmo tempo pode ser considerada acolhedora.
As histórias narradas por Miguel Sanches Neto em ''Hóspede Secreto'' possuem a particularidade de fazer o familiar se tornar estranho. Assim como a particularidade de fazer o estranho ser tornar familiar. Isso de uma maneira extremamente sutil, onde a realidade não está interessada em fazer grandes distinções entre o que é familiar e o que é estranho. E o conteúdo das narrativas não estaria apenas no que elas dizem, mas naquilo que sugerem. Naquilo que deixam a céu aberto, seja para serem iluminadas pelo sol ou devoradas por urubus.
Serviço:
''Hóspede Secreto'' de Miguel Sanches Neto, FCC Edições (Fundação Catarinense de Cultura - telefone (48) 333-0848), 112 páginas, preço não definido.


