LEITURA Sangue é dinheiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
De tempos em tempos o homem escolhe um animal como alvo de sua violência oculta. Uma escolha sempre pautada pelo comércio, pela rentabilidade de altos lucros. Na primeira metade do século 19, por exemplo, a baleia foi um dos mamíferos que mais sofreram nas mãos dos homens.
Era uma época em que, pela ausência de energia elétrica, as lamparinas eram alimentadas com óleo de gordura de baleia, especificamente das cachalotes. E para a obtenção desse rentável óleo, era necessário matar uma grande quantidade de baleias milhares delas. Com a tecnologia disponível na época, não era uma tarefa fácil. Os animais eram mortos com simples arpões e as viagens em alto mar duravam entre dois e três anos.
Durante esse mar de sangue, as pacíficas cachalotes tinham poucos recursos para se defender. Mas uma delas vingou o sofrimento de milhares, num episódio surpreendente. O fato ocorreu em 1820, quando uma baleia, ao presenciar o assassinato de vários membros de seu grupo, resolveu se vingar. Assim, o animal investiu contra o navio Essex, baleeiro norte-americano, no meio do Oceano Pacífico.
Com dois golpes de cabeça, a cachalote afundou a embarcação em poucos minutos. A tripulação, durante meses, permaneceu à deriva em três pequenos botes procurando sobreviver a qualquer custo, entre a loucura e o espectro da morte, superando os limites mais extremos. Recorrendo, inclusive, à prática do canibalismo.
Dos vinte tripulantes, apenas quatro sobreviveram. Era o primeiro caso de uma baleia responder a um ataque em toda história da navegação marítima. A história tornou-se famosa, percorreu os quatro cantos do mundo e serviu como inspiração para Herman Melville (1819 - 1891) escrever o clássico ''Moby Dick'', publicado em 1851.
O episódio foi reconstituído, de maneira bela, pelo historiador norte-americano Nathaniel Philbrick no livro ''No Coração do Mar'', publicado pela Editora Companhia das Letras em 2000. A obra é fruto de uma ampla pesquisa, baseada no relato dos sobreviventes da tragédia, o primeiro imediato Owen Chase, e do camareiro Thomas Nickerson de apenas 14 anos de idade na época. Nathaniel Philbrick criou um livro panorâmico, onde geografia, navegação, biologia, história, cultura, psicologia, aventura, e outros elementos constróem uma narrativa completa e sedutora.
''No Coração do Mar'' acaba de receber uma versão condensada, realizada pelo próprio Nathaniel Philbrick, voltada ao público jovem que se assustam com livros grossos, bem como aos leitores que possuem pouco tempo para leitura. ''A Vingança da Baleia'', lançado pela Cia. Das Letras preserva toda a história, concedendo ênfase maior à luta pela sobrevivência dos náufragos do baleeiro Essex. Uma história verídica que não tem nada a ver com aventura, mas com tragédia. Muito diferente dos exploradores que ganharam fama se aventurando pelos mares, as vítimas do episódio eram simples operários tentando ganhar a vida.
Dois pontos dos relatos de Nathaniel Philbrick intrigam. Um seria o fato de os maiores caçadores de baleias e comerciantes de óleo, dentro da chamada ''indústria da morte de baleias'', serem empresários e operários quakers seita religiosa norte-americana fundamentada numa rígida filosofia pacifista. Outro estaria no fato de que os únicos sobreviventes da tragédia eram homens brancos, quakers habitantes da Ilha de Nantucket sendo que parte dos marinheiros eram negros afro-americanos.
Hoje, matar baleias é um processo industrial com navios e equipamentos de alta tecnologia. As baleias deixaram de ser o mamífero alvo da violência oculta dos homens. Outros animais ocuparam seu lugar, com enormes quantidades de sangue derramado. Afinal, sangue continua sendo dinheiro.
SERVIÇO
- ''A Vingança da Baleia'' de Nathaniel Philbrick, tradução de Rubens Figueiredo, Editora Cia. das Letras, 200 páginas, R$ 27,00.
- ''No Coração do Mar'' de Nathaniel Philbrick, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 374 páginas, R$ 39,00.


