LEITURA Pequenas revelações
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
De um lado, os pesquisadores estendem tapetes vermelhos para seus escritos. Em teses e análises, colocam sua figura como a grande representante feminina do modernismo de língua inglesa.
De outro, uma legião de fãs guarda seus livros na cabeceira da cama. Tocados e acolhidos por seus escritos, realizam passeios por delicados estados psíquicos.
Ela nasceu Adeline Virginia Stephen no seio de uma família nobre, em Londres, no ano de 1882. Ficou mais conhecida como Virginia Woolf, nome que adotou após casar-se com Leonard Woolf.
Autora de romances, contos e ensaios, grande parte de sua obra foi publicada no Brasil, aproximadamente 20 títulos. Agora chega às livrarias, reunidos num único volume, todos os contos escritos por Virginia Woolf.
'Contos Completos', lançado pela Editora Cosac Naify é uma oportunidade do leitor acompanhar o desenvolvimento narrativo da escritora. Apresentados na ordem cronológica em que foram escritos, desenham um painel das fases e aprimoramentos da literatura de Virginia Woolf.
O conto que abre o volume é datado de 1906, escrito quando Woolf tinha 24 anos. E o que fecha é datado de 1941, ano de seu falecimento. Entre uma data e outra, é possível perceber como os textos passam da descrição de fatos e ações para a subjetividade que dimensiona seus sentidos.
Aos poucos a autora altera o elemento ''tempo'' da narrativa. O espaço é preservado como uma espécie de solo seguro para que o tempo seja instável, particular e sem amarras. A simultaneidade passa a ser um recurso estilístico. Pequenas situações e fatos são transformados em eventos psicológicos. Pequenas revelações são convertidas em vastos universos.
O dimensionamento do universo feminino é uma das características das histórias narradas por Woolf. Particularidades que normalmente passariam despercebidas, são tratadas com esmero. Coisas como o incômodo do estado de espírito de uma moça que não se sente bem dentro do vestido que está usando numa festa. Ou a insatisfação de uma mulher ao lado de um marido que desperta os mesmos sentimentos que uma batata.
Nos últimos dez anos de vida, Virginia Woolf viveu tumultuada por algo diagnosticado, na época, como ''distúrbios mentais''. Hoje o diagnóstico seria diferente, ''depressão''. Mesmo atormentada, escreveu várias obras até o dia em que encheu os bolsos do vestido de pedras e entrou no rio Ouse, não retornando à superfície.
Para o leitor que desejar entrar no universo literário de Virginia Woolf, não de maneira teórica, uma boa indicação é o romance 'As Horas' (Companhia das Letras, 1999) de autoria do escritor norte-americano Michael Cunningham. A obra foi transformada em filme pelo cineasta Sthepen Daldry em 2002.
Cunningham trabalha com o recurso da simultaneidade de Woolf. Apresenta a história de três mulheres, imersas em seus cotidianos. Virginia em seus últimos dias de vida, uma dona de casa da década de 50 em crise e uma mulher independente dos dias de hoje. Todas num provável contato com a morte.
Os elementos utilizados pelo autor para narrar o cotidiano de cada uma das mulheres é uma espécie de síntese da obra de Virginia Woolf. Algo que mostra que podemos compreender a literatura de um autor conhecendo a literatura de outro.
Serviço:
- ''Contos Completos'', de Virginia Woolf, Editora Cosac Naify, tradução de Leonardo Fróes, fixação de texto e notas de Susan Dick, 472 páginas, capa dura, R$ 59,00.
Ele sorriu; aceitou a frase; cruzou as pernas ao contrário. Ela fez seu papel; ele, o dele. E assim as coisas terminaram. Veio logo sobre ambos essa paralisante cessação de sentimentos, quando nada irrompe da mente, quando suas paredes parecem de ardósia; quando o vazio quase dói, e os olhos petrificados e fixos vêem o mesmo ponto uma forma, um balde de carvão com uma exatidão que é aterradora, pois nenhuma emoção, nenhuma idéia, nenhuma expressão de qualquer tipo surge para alterá-la, modificá-la, embelezá-la, uma vez que as fontes do sentir parecem lacradas e, enrijecendo-se a mente, enrijece-se também o corpo; fortemente estatuesco, sem deixar que Mr. Serle ou Miss Anning pudesse se mexer ou falar, e sentindo-se eles como se um encantador os tivesse salvo, e a fonte fez a vida correr por todas as veias, quando Mira Cartwright, dando um tapinha malicioso no ombro de Mr. Serle.
E eles puderam separar-se.
(Fragmento do conto 'Juntos e à Parte' que integra 'Contos Completos', de Virginia Woolf)


