Há uma certa crença de que o homem é o único responsável pela construção dos caminhos de sua própria existência. Que sua vida é determinada pelos seus atos e, por isso, estaria em suas mãos o total controle sobre andamento dos acontecimentos. Essa crença é facilmente abalada quando elementos como o acaso e os desejos ocultos invadem a cena e transformam a idéia de controle total num farelo de pão amanhecido esquecido sobre a mesa.
Essa temática, que parece rondar uma parcela representativa dos escritora, circunda dois livros que acabam de chegar às livrarias: ''A Tarde da Sua Ausência'', último romance do carioca Carlos Heitor Cony lançado pela Editora Companhia das Letras; e ''A Razão Selvagem'', segundo livro do contos do mineiro Francisco de Morais Mendes publicado pela Editora Ciência do Acidente.
De uma lado, ''A Tarde da Sua Ausência'' focaliza a imobilidade de personagens diante da vida, com a idéia de controle assolando as possibilidades de aconchego. De outro, em grande parte de seus contos, ''A Razão Selvagem'' desenha o mobilidade de personagens diante das interferência do acaso e dos desejos, sempre dispostos a abandonar o controle na primeira interferência.
Em ''A Tarde da Sua Ausência'', Carlos Heitor Cony narra as lembranças de Henrique, um homem que após ter uma sutil proximidade sexual com Vera, irmã mais jovem da esposa, penetra num isolamento defensivo. O mesmo ocorre com Vera. Após a experiência, entra num isolamento que despreza tanto o mundo como a si mesma. O desejo oculto é sublimado para baixo do tapete.
Dando materialidade a essa imobilidade silenciosa de Henrique e Vera, que se estende ao longo dos anos, está a trajetória de uma família carioca da década de 60 à década de 90. Nesse período acontece a ascensão e queda, econômica e moral, da família de descendentes portugueses. Assim, o narrador instaura um clima concreto para falar de subjetividades contidas.
Cony trabalha com o pressuposto de que a história que pretende narrar é complicada. A partir disso realiza repetições narrativas que não possuem nenhuma função literária. A impressão que causa é da imagem de um escritor cansado, que não tem muita certeza do caminho que desenha seguir. Ou mesmo não tem uma definição consciente do conteúdo que pretende apresentar, mesmo tendo em vista a volatilidade do tema.
''A Razão Selvagem'' é formado por sete contos que mostram como pequenos acontecimentos podem determinar a profundidade do mar. A maioria dos textos assimila a presença do acaso incorporado como norma da existência que deve ser tratada como algum tipo de razão. Assim, um caminho de mão dupla é vislumbrado. Um aquele em que o acaso e os desejos ocultos se encarregam de criar e inserir na vidas das personagens. Outro aquele em que a ação propriamente dita, onde indivíduo manifesta seus princípios particulares, cria o inesperado para tirar proveito dele. Ao lado da clareza narrativa, esse é um dos pontos interessantes do trabalho de Francisco de Morais Mendes.
Três contos do livro merecem destaque: ''Quimeras'', ''A Crítica da Razão Selvagem'' e ''Apartamentos''. Esse último, por exemplo, narra a história de um homem debruçando-se num exercício pouco usual: fotografar casas e apartamentos vazios, sem a menor presença de humanos e seus objetos. Para isso, se passando por alguém interessado em alugar residências, visita dezenas de lugares disponíveis em imobiliárias com a intenção de apenas fotografá-los com seus cômodos vazios. Com a presença do nada no ar. Nessa aventura, sempre alguém aparece no lugar tirá-lo de sua concentração de vazios. Seja um vizinho, outro pretendente a inquilino, ou mesmo a presença humana gravada nos sinais deixados pelos antigos habitantes pelos cantos.
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