LEITURA Os ossos da afetividade
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
A vida é um depósito de caixas vazias. Um lugar que acumula objetos jogados pelos cantos, amontoados ao acaso. Aos homens, cabe apenas vagar ao longo da existência, sempre em busca do conteúdo das caixas. E encontrar o conteúdo correspondente a cada caixa, pode ser uma esperança que pinga, lentamente, gota de agonia nos olhos.
Se a vida pode ser descrita como um depósito de caixas vazias, o amor também pode ser encarado como uma fatalidade que o destino espalha pelos quatro cantos do depósito. Um fatalidade escorregadia na qual os corpos são jogados longe da própria vontade em direção a um abismo acolhedor.
A escritora Margaret Mazzantini, no romance ''Não Se Mexa'', percorre esse depósito para apresentar a trajetória de um homem desgarrado da afetividade. Não tendo forças para jogar suas âncoras nas águas do amor, segue um destino cruel que cria para si mesmo.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Não Se Mexa'' é um romance aparentemente inofensivo. Mas sua narrativa, de modo tranquilo, revela os ossos que se escondem sob os músculos das relações afetivas. Entra no interior dos órgãos do amor para mostrar o vazio e a inútil tentativa de preenchê-lo com alguma coisa, seja ela o sentimento que for.
''Não Se Mexa'' é o relato de Timoteo, um médico de meia idade que espera sua filha adolescente numa sala de hospital. A garota está sendo submetida a uma delicada cirurgia no cérebro, após uma acidente de trânsito, e tem poucas chances de vida. Nessa espera que transpira desespero, Timoteo penetra em sua memória e, numa espécie de exame de consciência, resolve contar, mentalmente, sua vida à filha próxima da morte.
Grande parte de sua confissão recai sobre uma relação extraconjugal que viveu no passado, antes do nascimento da filha, e que sobrevive em sua memória como um afiado espinho. Admite que a única oportunidade que conheceu o impacto do amor, foi através de Italia, uma moça da periferia com a qual manteve uma intensa relação amorosa. Um caso onde os corpos diziam mais que as palavras, onde a intensidade oferecia mais que a estabilidade e a segurança, enfim, onde os limites voam para o espaço.
Todo relato de ''Não Se Mexa'' acontece no interior do narrador, não interferindo nas coisas externas, apenas dando ou tirando suas cores. Ele reflete sobre sua afetividade em relação a três mulheres: a filha, a esposa e a amante. Tudo escrito por uma mulher, a autora. O resultado é uma posição masculina que se dilui em nome de interesses maiores, que arromba o peito do gênero humano em busca de lucidez e entendimento.
Filha do escritor Carlo Mazzantini, Margaret Mazzantini nasceu na Irlanda, em 1961, e fixou residência na Itália, passando a escrever em língua italiana. ''Não Se Mexa'', agraciado com o prêmio Strego 2002, é seu primeiro romance publicado no Brasil. Sua narrativa é marcada pela constante tentativa de desvelar os possíveis ossos dos sentimentos, alheia a normas morais limitadoras e ao mesmo tempo atenta a sua força tanto construtiva como destrutiva. Consegue dar ao romance um caráter de intimidade onde a vida, vagando num depósito de caixas vazias, procura uma cadeira para descansar. Um descanso que dificilmente encontrará.
Serviço:
''Não Se Mexa'', de Margaret Mazzantini, Editora Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 302 páginas, R$ 39,00.


