Juninho, aos 10 anos de idade, tinha pavor de tubarão. Histórias de homens devorados por tubarões perturbavam seus pensamentos. Dentes afiados, pernas arrancadas, braços destroçados e muito sangue instalavam a sombra do medo em seus olhos.
  Aos 11 anos, Juninho deixou de ter medo de tubarão e passou a ter pavor de baleia. A repentina mudança ocorreu após o garoto ler uma versão de ‘‘Moby Dick’’ na escola. A imagem da lendária baleia branca que percorre os mares afundando navios como um monstro demoníaco, colocou os tubarões no chinelo.
  O que mais impressionou o garoto foi a descrição do hálito da baleia. Ao abrir a boca, seu bafo era capaz de derrubar uma dúzia de marinheiros. Algo como abrir a porta do inferno e dar de cara com o demônio em fúria. Os marujos que por ventura sobrevivessem, passavam a ter a alma atormentada por toda a eternidade.
  ‘‘Moby Dick’’, obra do escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891), é um daqueles clássicos que todo mundo conhece, já ouviu falar ou encontrou pela frente algum tipo de adaptação. Um daqueles típicos clássico que todo mundo tira o chapéu, mas poucos possuem a coragem de ler o extenso texto integral da primeira à última página. Do pequeno Juninho ao marmanjo letrado.
  A editora Cosac Naify acaba de encher o tanque da coragem dos leitores que ainda não percorreram a literatura de Herman Melville, acompanhando a simbólica baleia oceano afora. Colocou nas livrarias a melhor edição de ‘‘Moby Dick’’ publicada até o momento no Brasil. Não apenas pela tradução responsável, mas por tratar o livro como objeto estético, como uma espécie de barco onde o leitor é impelido a embarcar.
  ‘‘Moby Dick’’ foi publicado originalmente em 1851. Melville era um homem que já havia percorrido os Mares do Sul em diversos navios, chegando a viver entre nativos canibais em ilhas da região. A partir de um episódio real – o naufrágio do baleeiro Essex ocorrido em 1820, um dos raros casos de navios atacados por uma baleia – criou a figura do sombrio capitão Ahab.
  Ahad é um homem do mar que teve sua perna arrancada por um gigantesco cachalote branco. Sua vida é regida por uma obsessão insana: matar a baleia que mastigou sua perna. O romance é narrado por um marinheiro chamado Ishmael, que acompanha o capitão Ahad em sua obstinada vingança de cravar o arpão no coração da baleia.
  Aos olhos de Ahad, a imenso mamífero assume uma imagem demoníaca, a força do mal em estado puro. Uma força que dever ser vencida, sumariamente dizimada. Mas, no decorrer da narrativa, o capitão, em sua fúria obsessiva de vingança, passa a também assumir uma imagem próxima do demoníaco. Um homem que se transforma num catalisador do mal, da mesma maneira como a baleia aos seus olhos. Em outras palavras, a simbólica batalha entre o bem e o mal sede lugar à uma guerra mais sutil, o embate entre o mal e a maldade.
  ‘‘Moby Dick’’ já foi alvo de todo tipo de leitura e interpretação. Já foi descrito como um romance de aventura marítima. Também já foi descrito como uma investigação sobre a espiritualidade dos homens. Para um maior entendimento dessa diversidade de leituras e interpretações é aconselhável levar em conta a época e o momento em que foi escrito por Melville.
  No século 19, o óleo de baleia possuía a mesma importância que o petróleo possui nos dias de hoje. As cidades da Europa e Estados Unidos eram iluminadas com óleo de baleia. A cidade do Rio de Janeiro era iluminada com óleo de cachalote. A caça da baleia era praticada em projeção industrial mas de maneira totalmente artesanal.
  Todo esse processo é apresentado de maneira surpreendente pelo pesquisador Nathaniel Philblick no livro ‘‘No Coração do Mar’’ (Companhia das Letras, 2000). O autor resgata o histórico naufrágio do baleeiro Essex, no qual Herman Melville se baseou para criar ‘‘Moby Dick’’, para revelar a história da pesca da baleia e o comércio de óleo ao longo do século 19.
  Num relato sedutor, ‘‘No Coração do Mar’’ apresenta o fato de que toda a técnica de caça e comércio de óleo de baleia estava sob o poder de homens profundamente pacíficos e religiosos. A matança não era realizada por mãos sanguinárias e ensandecidas. Era dominada por mãos profundamente religiosas e defensoras do pacifismo.
  Esse paradoxo pode ser entendido a partir do contexto histórico e cultural. Mas também pode ser compreendido a partir das páginas de ‘‘Moby Dick’’. Distante das forças antagônicas do bem e do mal, um elemento funciona como elemento de ligação entre realidade histórica e ficção. Um elemento que pode ser descrito com uma única palavra: obsessão.
  Difícil dizer se Juninho seria capaz de entender os mecanismos da obsessão, mas o medo que ele sentia era alimentado por algum tipo de ração. Algum tipo de alimento que tanto poderia engordar o medo como satisfazer a coragem. Alguma coisa que deixava simplesmente de ser uma constante para assumir a própria forma de um garoto. Ou, quem sabe, de uma baleia. ‘‘Moby Dick’’ nada mais é do que a afirmação de que o homem é fruto da obsessão, que a humanidade é um produto da obsessão. Seja em terra ou no mar.

SERVIÇO
- Moby Dick
Autor – Herman Melville
Editora – Cosac Naify
Tradução – Irene Hirsch e
Alexandre Barbosa de Souza
Páginas – 656 – capa dura
Quanto – R$ 99

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