Vivemos uma época em que a juventude conquistou um valor meteórico e assustador. Envelhecer naturalmente, tornou-se algo depreciativo que deve ser sumariamente descartado da vida das pessoas.
O velhos precisam ter a vitalidade dos jovens para serem admirados, respeitados e tratados como bom exemplo. Não aparentar idade avançada é uma valiosa arca de ouro que deve ser conquistada a qualquer preço. Sob o disfarce da auto-estima, as pessoas montam verdadeiros exércitos para a batalha contra a velhice.
Envelhecer tornou-se uma espécie de crime para o qual todos conhecem a pena: a solidão. Rejuvenescer, pelo contrário, é uma dádiva que confere liberdade total: a sociabilidade. Ninguém deseja se manter jovem para viver isolado, mas para uma vida coletiva, quanto mais gregária melhor.
Em seu novo romance, ''Braz, Quincas & Cia.'', o escritor carioca Antonio Fernando Borges focaliza esse quadro com um punhado de ironia. Apresenta o indivíduo como elemento em processo de extinção, massacrado pela igualdade das massas. E o culto à juventude é um prolongamento do fim do indivíduo em prol da coletividade sem rosto.
''Braz, Quincas & Cia.'' é um romance peculiar. A princípio parece ser um tributo à literatura de Machado de Assis (1839 - 1908). O narrador é neto de um suposto irmão caçula do escritor - um padeiro que teve sua carreira literária ofuscada pela genialidade do irmão - e faz uso do universo e da dicção machadiana.
Com o avanço das páginas, o leitor descobre que o universo e a dicção machadiana é apenas uma ferramenta para atingir outro objetivo: um intrincado romance cerebral repleto de jogadas onde tudo parece ser aquilo que não é. E traz em sua narrativa uma trama policial subliminar bem disfarçada. Tudo isso para combater, com armas ferinas, a extinção do indivíduo pelas hordas sem rostos.
''Braz, Quincas & Cia.'' conta a história de um escritor que recebe a incumbência de descobrir se um livro escrito no final do século 19, de autoria de um certo J. Deus & Silva, é verdadeiro ou falso. A obra é um manifesto contra a ascensão do individualismo.
Mesmo sem querer entrar numa possível investigação, impulsionado pela curiosidade e pelo desafio, entra no jogo e descobre a existência de um possível livro inédito deixado pelo avô antes dele cometer suicídio. A cada descoberta, percebe que está morrendo - não deixando de viver, mas deixando de existir perante o mundo da coletividade.
Após uma série de estranhos episódios, descobre que foi vítima de um grupo de pessoas que desejam apagar, num espécie de jogo coletivo, os indivíduos que ainda possuem uma face própria, individual. No meio dessa loucura cerebral, compreende que sua própria existência tornou-se peça de um jogo alheio. Nem mesmo a morte lhe é reservada. Isso porque já está morto coletivamente - e a morte de um indivíduo nada significa para uma sociedade tiranicamente gregária.
Bem escrito e bem arquitetado, ''Braz, Quincas e Cia.'' revela um escritor que promete boas surpresas pela frente. Isso porque a obra é apenas o segundo romance de Antonio Fernando Borges, nascido em 1954. Ele publicou anteriormente apenas ''Que Fim Levou Brodie?'', em 1997.
Serviço:
''Braz, Quincas & Cia.'' de Antonio Fernando Borges, Editora Companhia das Letras, 174 páginas, R$ 00,00.

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