LEITURA O delírio do acaso
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Coloque a mão no bolso e procure uma moeda. Se não achar nenhuma moeda, feche o jornal e vá dar um volta pela cidade. Se achar uma moeda, jogue-a para cima. Se, ao cair, der coroa, deixe de ler esse texto e passe para as palavras cruzadas logo abaixo. Se der cara, continue lendo o texto.
O acaso provocado por uma simples moeda pode gerar um amplo leque de possibilidades. Um passeio pela cidade com certeza pode proporcionar inúmeras situações, mas entrar em contato com uma literatura empenhada em revelar como a mente trabalha com o acaso pode oferecer muito mais. O ato de tirar a decisão pessoal das próprias mãos para colocá-la nas mãos do acaso, é um jogo repleto de incertezas.
Em seu novo romance, ''Encrenca'', o escritor catarinense radicado em Curitiba, Manoel Carlos Karam, entra nesse tipo de jogo. Respeitando as regras, mergulha no caótico processo mental típico do ser humano e desenha uma narrativa espiral minimalista de múltiplas possibilidades.
Em ''Encrenca'', lançado pela Ateliê Editorial em parceria com a Imprensa Oficial do Paraná, Karam não conta uma história, narra um processo mental. O personagem narrador é usuário de um medicamento chamado Invertral que altera a noção de tempo de quem o utiliza. Com a noção de tempo alterado, a memória sai de férias levando todas suas malas cheias. O passado e o futuro praticamente deixam de existir para dar plenos poderes ao presente.
Como ''Ulisses'' de James Joyce, ''Encrenca'' acontece num único dia, com o narrador dirigindo seu carro pelas ruas da cidade e percorrendo os bares peculiares. Sempre com um copo na mão, executa suas ações de acordo com um moeda jogada para o alto. As pessoas que encontra pela frente sempre parecem também agir de acordo com o acaso.
Mas não é bom confiar na noção de tempo apresentada pelo narrador.
Isso porque sua percepção não segue necessariamente o tempo real, mas o tempo alterado pelo efeito do Invertral. Além do mais suas ações nem sempre acontecem fisicamente, mas no interior de sua mente. Assim, as ações passam a existir muito mais no campo das idéias do que na realidade propriamente dita.
A leitura de ''Encrenca'' é uma experiência maluca onde o leitor precisa levar em conta que além do personagem narrador, há outros dois personagens principais, o linguagem e o acaso. Dois princípios que, andando de mãos dadas são capazes de criar rodamoinhos para centrifugar a existência.
Ao abrir o livro e percorrer as primeiras páginas, o leitor fatalmente se sentirá diante de uma verdadeira encrenca a ser resolvida, uma encrenca literária de difícil assimilação. Apesar de todo o jogo do acaso, ''Encrenca'' é sustentado por uma estrutura articulada com pequenos rebites de fixação. Algumas chaves para esse entendimento é oferecida pelo autor ao longo do texto de modo sutil e sem alardes.
A literatura de Manoel Carlos Karam, nascido em 1947, é um caso específico na literatura brasileira contemporânea. Sua fidelidade a um estilo particular se mantém integro na grande maioria de suas obras. E quanto mais o tempo passa, mais depura sua linguagem - que já deixou de ser experimental para se constituir como estilo próprio, maduro.
Enfim, Karam é um verdadeiro cabeça dura, completamente alheio em relação ao biscoito que os leitores gostariam de devorar com farofa. Capaz de transformar o acaso em personagem para sugerir que não temos o controle soberano da vida. Capaz de transformar a linguagem em personagem para demonstrar como o vício do verbo limita o mundo, a própria visão de mundo e seu entendimento.
Coloque a mão no bolso novamente e procure uma moeda. Se ela não estiver lá, aproveite o domingo de sol e dê um banho no cachorro. Se a moeda ainda estiver no bolso, jogue-a para cima. Se der cara, esqueça que leu esse texto. Se der coroa, procure se lembrar sem fazer uso da memória.
Serviço:
''Encrenca'' de Manoel Carlos Karam, Ateliê Editorial/Imprensa Oficial do Paraná, 160 páginas, R$ 25,00.


