LEITURA O crime imperfeito
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Há muito tempo o senso comum convive com a ideia de que a prática de delitos ocupa lugar cativo no executivo, no legislativo e no judiciário brasileiro. Práticas como roubos ou desvio de verbas entraram definitivamente na rotina dos homens do poder.
Há muito tempo o senso comum convive com outra ideia: se os homens do poder podem praticar delitos e saírem ilesos de punição, o cidadão comum também pode passar a mão numa bolada sem maiores problemas.
Em seu novo romance, ''Bendito Assalto'', o escritor londrinense Domingos Pellegrini parte desse raciocínio do censo comum para percorrer as múltiplas facetas da honestidade. Lançado pela editora Leitura, narra a história de um grupo de trabalhadores que, diante das dificuldades financeiras, decidem radicalizar: assaltar um carro forte recheado de notas novinhas.
O grupo é formado por quatro pessoas: o bancário Mário, líder intelectual do assalto e fissurado em cinema; a hiponga Lara, uma mística vegetariana que ganha a vida vendendo bijuterias em bares universitários; Guto, um jornalista eternamente desempregado; e Toninho, um bancário e ator gay que sonha em viver apenas do teatro. Todos acalentando um sonho de realização pessoal, todos insatisfeitos com a profissão que executam, todos conscientes de que, trabalhando honestamente, sempre estarão duros de mal pagos.
O plano do crime é quase ideológico: realizar o assalto sem utilizar armas, sem nenhum tipo de violência e sem causar prejuízo monetário às vítimas. Um assalto da paz. Um assalto pautado por questões éticas e morais. Um crime do bem. Utilizando, para isso, inteligência e calculo exato. Tudo muito bem pensado para cada um colocar a mão numa grana capaz de materializar o sonho de cada membro do grupo.
''Bendito Assalto'' é um romance onde Domingos Pellegrini revisita temas e abordagens já trabalhadas em sua literatura. Vários episódios narrados no livro remetem a episódios presentes em outros livros do autor. É impossível não associar ''Bendito Assalto'' com ''Assalto à Brasileira'' (Busca Vida, 1988), obra em que Pellegrini reconstitui, em forma de reportagem, o audacioso assalto ao antigo banco Banestado do Calçadão de Londrina em 1986.
O episódio de ''Bendito Assalto'', onde a personagem Lara retorna à sua pequena cidade natal para visitar a mãe durante uma enchente, é uma revisita ao conto ''O Encalhe dos 300'', publicado no primeiro livro de Pellegrini, ''O Homem Vermelho'' (Civilização Brasileira, 1977). A atmosfera de uma situação limite, onde as pessoas precisam se unir comunitariamente para a sobrevivência. A emblemática situação onde a simplicidade da generosidade resolve as dificuldades por impulso cultural.
Em ''Bendito Assalto'', Pellegrini segue colocando em prática o princípio que está presente em toda sua literatura: a criação de uma nova imagem do herói. Em suas histórias, o herói do mundo atual assume a figura do homem comum, aquele que consegue vencer o enorme dragão da maldade combatendo com os instrumentos das pequenas coisas do cotidiano. Nas ações mais simples e diretas, seguindo na direção da restauração dos humanitários valores da honestidade.
Apesar de todo calculado, o assalto da paz acaba na lama. Em ''Bendito Assalto'', uma pequena obra do acaso entra em jogo e derruba todas as certezas do crime. Ao longo da narrativa, aquilo que aparentemente era mal dá origem a algo bom. Sob o vislumbre de que tudo se resolve, de um modo ou de outro, o otimismo ganha uma lugar ao sol. E a lua é colocada na gaveta.
Serviço
- Bendito Assalto
Autor - Domingos Pellegrini
Editora - Leitura
Quanto R$ 28 (216 pág.)
- Você fala sério mesmo, né? Assaltar banco?!
- Mas não exatamente uma agência bancária, com máscara e de arma na mão, nada disso, né, Lara. Mas de qualquer forma vai ser um assalto. Ou você acha que vai conseguir grana quando, como?! Trabalhando?! Eu não consigo trocar os pneus do carro, fui três vezes ao borracheiro este mês pra remendar pneu velho!
(Fragmento de Bendito Assalto de Domingos Pellegrini)


