Se não há cadáver, não há crime. Pelo menos é o que prega a lei. Se o corpo assassinado não for encontrado, na teoria não há assassino. A perfeição em esconder um corpo assassinado faz do criminoso um gênio.
Em seu novo romance policial, "Um Lugar Perigoso", o escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza aposta na ideia de que o pior lugar para se esconder um cadáver é dentro da cabeça. Os fantasmas internos são os primeiros a ligar para a polícia.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Um Lugar Perigoso" é o décimo romance de Garcia-Roza, um dos principais nomes do romance policial brasileiro da atualidade, com as aventuras investigativas do delegado Espinosa. A novidade está em Espinosa entrar na investigação de um crime que ele não sabe se realmente aconteceu.
Tudo começa quando um sujeito aparece na delegacia dizendo que talvez tenha assassinado uma mulher e picado o corpo em pedacinhos dez anos atrás. Após achar em seu diário uma lista de mulheres que não sabe quem são, começa a acreditar que assassinou no passado todos os nomes da lista.
No princípio Espinosa acha tratar-se de um lunático, mas descobre que o sujeito (Vicente, um professor de literatura aposentado que passa os dias traduzindo Edgar Alan Poe) possui uma doença pouco comum.
Portado de uma doença neurológica chamada síndrome de Korsakov, Vicente sofre de surtos de amnésia que deixam profundas lacunas na memória. E uma maneira de compensar a falta de memória é justamente preencher as lacunas com histórias fictícias. Outra maneira é criar situações reais que confirmem e legitimem as criações da imaginação.
Nesse terreno movediço, fica difícil saber se Vicente realmente assassinou as mulheres e se esqueceu dos crimes, ou imaginou que assassinou para dar um sentido aos nomes das mulheres da lista. Ou, em outra interpretação, imaginou os assassinatos e precisa transformar a história em realidade, assim precisará matar para conferir realidade à imaginação.
Assim, fica praticamente impossível saber o que é realidade e o que é ficção na vida de Vicente. E igualmente impossível saber se os assassinatos ocorreram no passado (não há corpos encontrados) ou devem ocorrer no futuro. Esse terreno movediço é o grande argumento de Luiz Garcia-Roza, que lentamente insere novos elementos para acentuar a confusão entre verdade e mentira.
Nesse pântano, o papel investigativo de Espinosa ocupa um lugar secundário (a investigação, por exemplo, tem início apenas após 100 páginas de narrativa). Seu papel enquanto detetive é apenas dar corda ao suposto assassino para que ele próprio construa o nó e se enforque no jogo entre memória e esquecimento, entre realidade e imaginação.
O furo de Luiz Garcia-Roza em "Um Lugar Perigoso" está tratar o leitor com excesso de didatismo sobre a doença do personagem Vicente. O processo de amnésia de Vicente é explicado a cada personagem que aparece ao longo da narrativa, como se a amnésia estivesse restrita não apenas no personagem, mas também no leitor.
A mente humana pode oferecer todos os tipos de perigos. Até mesmo transformar a imaginação em crime. Mas como não há crime sem cadáver, basta criar um para ficar tranquilo diante de uma culpa sem corpo.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA<br> O crime da imaginação
Serviço: "Um Lugar Perigoso" Autor – Luiz Alfredo Garcia-Roza Editora – Companhia das Letras Páginas – 264 Quanto – R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)





Fragmento
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- Podemos admitir como verdadeira a declaração que ele nos fez da síndrome de Korsakov de que é portador. Ao que tudo indica, essa síndrome afeta a sua memória, mas não afeta diretamente a inteligência e o pensamento lógico. Daí sua fala ser perfeita, a lógica do pensamento consistente, isto é, não apresentar contradições internas, o que lhe permite argumentar conosco com clareza. O problema surge quando vamos confrontar sua narrativa com a realidade... Pode ser que não exista nenhuma Paula tal como ele descreve; mais ainda, é possível que a tal Fabiana nunca tenha existido a não ser na fantasia ou no delírio dele. É provável que Fabiana seja apenas uma habitante das cadernetas dele... Ela não é feita de carne e osso, não é um corpo real, passível de ser morto, esquartejado e jogado aos jacarés. Mas Fabiana tampouco é uma mentira que ele nos conta, trata-se de uma fantasia dolorosa que ele quer a todo custo expulsar de sua consciência. O que podemos concluir disso tudo é que é muito mais difícil nos livrarmos dos cadáveres produzidos pela nossa imaginação do que de cadáveres reais que já enterramos.

("Um Lugar Perigoso", de Luiz Alfredo Garcia-Roza)

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