LEITURA O boêmio da garoa
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de abril de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Em abril de 1999 um sujeito chamado Edmundo Donato soube que estava com câncer. Tinha 74 anos de idade e acabou falecendo em poucos dias. Sua viúva, atendendo o desejo do marido, cremou o corpo e, com o auxílio de um helicóptero, jogou as cinzas sobre a região boêmia de São Paulo. Era um admirador inveterado dos bares, boates, botecos e bordéis do centro da cidade com toda sua fauna humana.
Talvez o nome Edmundo Donato não diga muita coisa. Mas esse era o verdadeiro nome de Marcos Rey, um dos escritores brasileiros que mais vendeu livros no país e que, na última década, praticamente caiu no esquecimento. Irmão mais novo de Mário Donato - autor de ''Presença de Anita'' -, escreveu dezenas de roteiros para cinema e teve vários de seus romances adaptados para novelas de televisão. Suas histórias infanto-juvenis ganharam tiragens imensas.
Agora a obra de Marcos Rey volta às livrarias com a reedição de seus romances. A Editora Companhia das Letras acaba de publicar ''Memórias de um Gigolô'' e ''Ópera do Sabão''. Em setembro será a vez de ''Malditos Paulistas'', ''Café na Cama'' e na sequência uma biografia do escritor que está sendo realizada pelo jornalista Carlos Maranhão.
Publicado originalmente em 1968, ''Memórias de um Gigolô'' é o mais conhecido romance de Marcos Rey. Transformado em filme e minissérie, conta a história de Mariano, um órfão criado dentro de um bordel. Crescendo num ambiente rodeado de facilidades femininas, torna-se um autêntico malandro paulistano da década de 30. Tendo certa antipatia pelo trabalho, ganha a vida aplicando pequenos golpes na companhia de sua amada Lu.
Além de arquitetar golpes, sempre precisa estar atento ao adversário, o malandro Esmerado que lhe rouba Lu de tempos em tempos. Tendo como pano de fundo a modernização da cidade de São Paulo o romance é uma avenida onde pessoas caminham a esmo, levando uma existência totalmente oposta àquela socialmente aceita e normalizada.
O interessante é que a estrutura da história de ''Memórias de um Gigolô'' é encontrada em outros livros recentes, como ''O Rei de Havana'', romance do cubano Pedro Juan Gutiérrez. A tentativa de sobrevivência, associada à fúria da paixão que potencializa a falta de perspectiva existencial, é um elemento recorrente. Assim, tudo indica que a velocidade das últimas décadas não alteraram em nada a fúria da urgência da vida a qualquer preço.
Publicado originalmente em 1980, ''Ópera de Sabão'' é um autêntico folhetim no velho estilo de Nelson Rodrigues. Entre o cômico e o dramático, narra os três dias mais conturbados de uma família paulistana logo após o suicídio do presidente Getulio Vargas, em 1954. Marcos Rey apresenta de maneira intercalada as ações de cada um dos membros da família (pai, mãe e três filhos) até juntar as consequências dos atos de maneira hilária revelando um rio de hipocrisia.
Surge o pai que, sob a desculpa da morte de Getúlio Vargas cai na cama da amante. A mãe, que mesmo cega ativista anti-aborto, induz uma jovem a interromper a gravidez para salvar a pele de seu filho, que iludiu a moça. A filha que faz de tudo pela ascensão social, inclusive casar com um rico homem 30 anos mais velho. O filho que para frequentar lugares caros, torna-se amante de uma viúva carente. Ou seja, folhetim com todas as possibilidades do senso-comum. O detalhe é que, diferente de Nelson Rodrigues, Marcos Rey insere questões, mesmo que diluídas, existenciais.
Com uma linguagem ágil e direta, Marcos Rey construiu uma literatura acessível a qualquer leitor. Seus livros não possuem estruturas complexas ou labirintos filosóficos. Seguem a tradição do universo popular onde as histórias são pautadas pela ação, pelo ato imediato, e não pelo processo mental dos personagens.
Serviço:
- ''Ópera de Sabão'' de Marcos Rey, Editora Companhia das Letras, apresentação de Mário Donato, 320 páginas, R$ 36,00.
- ''Memórias de um Gigolô'' de Marcos Rey, Editora Companhia das Letras, 318 páginas, R$ 36,00.


