LEITURA Mulheres se atirando ao mar
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2002
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Certa ocasião, Sigmundo Freud (1856 - 1939), declarou que entender as mulheres era um tarefa impossível. Por isso, seria totalmente desnecessário empreender tal tarefa, pois ela sempre estaria fadada ao fracasso. O pai da psicanálise, com essas palavras, resumia, com uma certa ironia, a idéia presente em qualquer conversa masculina de esquina.
Para os homens, é empiricamente impossível entender as mulheres. Isso está tatuado na pele do senso comum. Independente do qualquer tipo de tentativa, dedicação e empenho, o universo feminino seria um nebuloso segredo vetado à compreensão masculina.
Nesse quadro, surge uma dúvida tão irônica quanto a constatação de Freud: se os homens não conseguem entender as mulheres, será que as mulheres conseguem entender elas próprias? Independente da resposta, o fato é que a grande parte das mulheres está procurando, de maneiras específicas, se entender nos tempos atuais. E isso volta e meia aparece na literatura. Esse é caso de Mercedes, personagem de ''Divã'', romance da escritora e jornalista gaúcha Martha Medeiros lançado essa semana pela Editora Objetiva.
Mercedes é uma brasileira classe média, 40 anos, casada há duas décadas, mãe de três filhos, professora de matemática que tem a pintura como hobby. Uma bela tarde, decide que precisa fazer terapia. Começa então a realizar duas sessões semanais de psicanálise. Além de investigar os sentimentos que lhe trazem sofrimento, como também os que trazem prazer, passa a narrar sua vida ao terapeuta - dando pouca atenção à metódica ciência psicanalítica.
''Divã'' é a primeiro romance de Martha Medeiros que, desde a década de 80, trabalhava apenas com poesia e crônica - com mais de dez livros publicados. A obra é constituída pelo depoimento de Mercedes que, ao deitar-se no divã, faz uma desabafo reflexivo de sua condição feminina em busca da tão almejada felicidade.
Martha, utilizando sua experiência como cronista, realiza um texto ágil, pautado pela oralidade, temperado com bom humor. A narradora, Mercedes, apresenta suas dores, alegrias, dúvidas e contradições como se estivesse conversando com uma velha amiga de confiança. O livro acompanha três anos de seu processo terapêutico para aceitar a insatisfação com o casamento, arrumar um caso extraconjugal, divorciar-se e arrumar um namorado mais jovem.
A síntese de ''Divã'', pode ser descrita como a luta, mesmo que acanhada e confusa, de uma mulher em busca da liberdade. Aquele estado em que pode ser ela mesma, melhor ainda, aprender a ter coragem de ser ela própria. Nessa busca, a narradora chega a conclusão de que ''a liberdade é atraente quando existe como promessa, mas nos enlouquece quando se cumpre''.
De modo coloquial, a autora transfere um princípio filosófico masculino para a cozinha. Tendo em vista as conquistas femininas frente às normas sociais dominadas pela força masculina, as mulheres chegaram a um impasse: o que fazer com essa conquista exterior se os sentimentos ainda exercem uma poderosa dominação inexplicável?
O caminho desenhado por Martha Medeiros em ''Divã'' aponta para a direção de que a vida sempre será uma sucessão de erros e acertos. E que depois de uma certa idade, o erro deixa de existir, pois tudo se torna uma louca tentativa não de apenas acertos, mas de viver o que cada um escolhe. Pagando o preço por isso, é claro.
''Divã'' é um tipo de romance que, é possível supor, terá maior repercussão entre o público feminino. Possui até uma boa chance de se tornar, pelas suas características, um best-seller. Isso porque além de levar o leitor a se identificar com a trajetória de Mercedes, levanta questões da mulher atual na sua busca pela felicidade. Também pode atuar como uma alavanca para a auto-estima das mulheres que ousam seguir suas próprias vidas, fora dos padrões rígidos de moralidade, e que não possuem outra opção a não ser pagar um preço por tal iniciativa. E com uma boa dose de otimismo.
Serviço: ''Divã'' de Martha Medeiros, Editora Objetiva, 156 páginas, R$ 21,00.
''Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nosso anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte de sua biografia.''
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''Por que banho é um ritual rotineiro e sexo não? Por que o sexo tem que vir com garantias de amor, reciprocidade, atestado de saúde, carteira de identidade? Sexo deveria ser como uma chuveirada. Uma gargalhada. Sexo com amor deveria ser como voar de primeira classe, um privilégio de poucos, mas sem esquecer que a classe turística também merece chegar ao paraíso. Sexo econômico. Sem luxo, sem champanhe, sem lençóis de linho. Por que custa mais caro?''
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''Vidas não são entregues em kits personalizados, compostos por dois sonhos. meia dúzia de projetos e uma única maluquice: essa costuma ser a munição que cada pessoa recebe ao nascer, para que a ordem seja mantida na sociedade. Eu aceito a parte que me toca, mas ninguém me impede de incrementar o dote. Não sou mais nenhuma garota e sei que não preciso passar o tempo que me sobra contabilizando erros e acertos. Tudo é acerto, principalmente quando se está mais perto do fim do que do começo.''
(Fragmentos de ''Divã'' de Martha Medeiros)


