Existem homens que escalam montanhas simplesmente porque elas estão lá, serenamente imóveis, esperando para serem escadas. Também existem homens que escalam montanhas simplesmente porque eles não estão lá, cansados e triunfantes, no topo das pedras.
Existe também um terceiro tipo de homem. Aquele que troca as montanhas pela vida. E, por isso, sabe que pode tocar a vida porque ela está ali, ao alcance das mãos. Do mesmo modo como sabe que precisa correr atrás da vida, porque está distante dela.
Esse tipo de homem se assemelha ao protagonista do novo livro do escritor Daniel Galera. Lançado pela Companhia das Letras, ''Mãos de Cavalo'' é um romance onde um homem procura acertar as contas com as escolhas realizadas no passado. Na tentativa de reparar as fraturas da infância e adolescência, reencontra o princípio da restauração.
A estrutura de ''Mãos de Cavalo'' apresenta duas narrativas paralelas. De um lado, um garoto vivendo as primeiras experiências com o mundo. Percorrendo as ruas de bairro de Porto Alegre, entra em contato com as primeiras relações com a realidade, principalmente as noções nem sempre claras de coragem e covardia.
De outro lado, um médico bem-sucedido procura revisitar o passado na tentativa de restaurar o presente. Preparando-se, na mesma cidade, para a aventura de escalar uma montanha inóspita do interior da Bolívia, depara-se cara a cara com os fantasmas da adolescência. Justamente num tempo onde as noções de coragem e covardia se confundiram.
Unindo passado e presente de maneira não-linear, Galera desenha dois personagens diferentes. Ao longo da narrativa, com sutilezas, estabelece conexões entre ambos até o ponto em que as duas histórias tornam-se uma só. Uma junção que não apenas une passado e presente, mas principalmente os dois personagens em busca de uma única possível redenção.
Embora tenha nascido na cidade de São Paulo, em 1979, Daniel Galera viveu praticamente toda a vida em Porto Alegre. Autor de outros dois livros, ''Dentes Guardados'' (2001) e ''Até o Dia em Que o Cão Morreu'' (2003), é um dos nomes de destaque entre os jovens escritores da recente literatura brasileira. Foi dos criadores da Editora Livros do Mal, responsável pela publicação da nova geração de escritores gaúchos.
Bem articulado e com encaminhamento narrativo sedutor, ''Mãos de Cavalo'' narra a história de um homem que, diante da tragédia, abre um enorme parêntese em sua existência. Ao encontrar, por acaso, a possibilidade de subtrair esse incomodo parêntese, agarra-se a ela como restauração da verdade. E aceita a idéia de que a vida é constituída muito mais de ferimentos do que possibilidades de cicatrização. E que, apesar de longínquos, os possíveis unguentos estão perdidos na paisagem.
Confira a entrevista que Daniel Galera concedeu à Folha2.
O personagem principal de ''Mãos de Cavalo'' compreende a própria vida através de uma série de ritos de passagem. Você acha que os ritos de passagens ainda são necessários e determinantes na vida contemporânea?
Acho que sempre serão. Mas eu não gosto muito do termo ''rito de passagem'', porque parece sugerir que os tais ritos são comuns a todas as pessoas e acontecem num esquema mais ou menos previsível dentro de nossas vidas. A vida é mais caótica do que se gostaria de acreditar. Acho que o personagem do livro sofre diversas pequenas rupturas em sua visão de mundo.
O protagonista do romance assiste ao medo, em determinado momento, alterar completamente sua vida. Você considera que o medo possui um poder descomunal na existência humana?
Não sei dizer. Mas acho o seguinte: o senso comum prega que todo medo deve ser enfrentado. Isso costuma ser verdade, mas nem sempre. Recuar é válido, muitas vezes. O personagem sofre com esse dilema, o medo pesa na vida dele. Mas o livro não busca uma resposta definitiva para nada, porque não tenho respostas dessa natureza para oferecer. O sentimento que me move a escrever ficção vem das perguntas.
Seria possível delimitar uma fronteira entre a coragem e a covardia diante do medo?
Coragem é buscar decidir. Covardia é não tentar decidir. Decidir conviver com um medo pode exigir coragem.
O passado é um elemento importante em ''Mãos de Cavalo''. O personagem principal atua com uma espécie de ''escravo do passado''. Um escravo que busca liberdade ou algum tipo de redenção. O passado seria necessariamente um feitor indócil?
Não necessariamente. Não creio que o protagonista do meu livro seja escravo do passado. Ele é assombrado pelo seu desejo de ser outra pessoa. Ele consegue manter esse desejo sob controle por quinze anos, até que seu plano começa a desmoronar.
A maneira como você utiliza a descrição ao longo da narrativa é algo determinando no romance, conferindo intensidade em sutilizas e detalhes. Você tinha uma intenção específica nesse sentido?
Sim, carreguei nas descrições de propósito. A intenção foi tentar elaborar os personagens e narrar a história não apenas com ação e diálogos, mas também com descrições. Foi uma mudança intencional no meu estilo de escrever. Achei que cairia bem para essa história, e descrever pode ser prazeroso.

Serviço:
- Livro ''Mãos de Cavalo'', de Daniel Galera. Editora Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 34,00.


  ‘‘O mundo ao seu redor se transformou em um borrão e seus olhos lacrimejavam com o vento. Nos primeiros segundos de descida, percebeu que já não tinha controle da bicicleta. Mesmo assim continuou pedalando mais e mais. Sabia que ia cair. E todos iam ver ele cair. Enquanto descia, teve consciência de que era apenas isso que o movia a descer aquela escadaria tantas vezes, a possibilidade da queda, de se arrebentar no chão. E essa seria a mais espetacular de todas. Era o que tinha a dizer às pessoas lá em cima. Estava pronto para sangrar. Era seu talento. Se o Bonobo tinha sido capaz de bater em vinte ao mesmo tempo, agora ele seria capaz de cortar, ralar, escoriar, debulhar, raspar fraturar, arranhar, perfurar e esmagar seu próprio corpo de um jeito que ninguém mais esqueceria. Ao passar sobre a lombada no meio do percurso, Hermano puxou o guidom para cima e lançou a bicicleta no ar. Aterrissou cinco metros à frente. Com a força do impacto, o guidom deu um giro completo para a direita e a bicicleta rebateu para a esquerda, caindo sobre a escadaria de degraus de pedra. Ciclista e bicicleta embolotaram escada abaixo. Não havia dor, apenas uma sensação de total descontrole que suscitava mais resignação que pânico. Degraus de pedra, tubos de aço e pneus de borracha alternavam golpes em todas a partes do corpo. Era quase como surfar uma onda, pegar um jacaré.’’
(Fragmento de ‘‘Mãos de Cavalo’’, de Daniel Galera)

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