LEITURA Falsificações do real
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
''O Cemitério de Praga'', o mais recente romance de Umberto Eco, nasceu sob o manto da polêmica. Quando foi lançado no ano passado na Europa, sofreu ataques das mais variadas direções. Levou pesadas bordoadas da igreja católica. Apanhou ferozmente da comunidade judaica. Foi duramente criticado pela maçonaria.
Lançado agora no Brasil pela editora Record e já figurando nas listas dos mais vendidos, ''O Cemitério de Praga'' se revela nascido sob o manto de muito barulho por nada. Nada mais que a história do ''sujeito mais odioso do mundo'', nas palavras do próprio autor. Um sujeito chamado Simonini, que vive da farsa em suas mais variadas formas na Europa do século 19.
Simonini é um exímio falsário de documentos antigos. Nas horas vagas atua como espião político ou traficante de hóstias para rituais satânicos. Basta o cliente pagar, que terá nas mãos o que deseja independente das consequências que representam. Não existem escrúpulos, há comércio.
Sua grande obra é a falsificação de ''Os Protocolos dos Sábios de Sião'', documento que registra o encontro da cúpula judaica no Cemitério de Praga. Nesse encontro é tramada a dominação do mundo pelo povo judeu. Historicamente, o documento seria utilizado pelo Czar Nicolau II para justificar a perseguição dos judeus na Rússia. Também teria inspirado Adolf Hitler a criar os campos de concentração para o extermínio dos judeus.
Umberto Eco afirma que em ''O Cemitério de Praga'' há um único personagem ficcional, Simonini. Todos os outros são personagens reais. Os episódios retratados também são praticamente todos reais, devidamente registrados nos anais da História. Para sustentar esse caráter real do enredo, o escritor italiano afoga o romance de referências históricas e citações eruditas. O enredo propriamente dito chega a ocupar um lugar secundário do romance. O resultado é uma trama interessante dentro de uma narrativa chata.
Para retratar a veracidade dos fatos, Umberto Eco, como inveterado bibliófilo, ilustra o livro com uma série de gravuras do século 19 que representam os episódios narrados. O recurso lembra o trabalho realizado pelo escritor brasileiro Valêncio Xavier (1933 - 2008), mas a intenção de Eco caminha em outra direção.
Sua intenção está claramente em dar veracidade a uma história sobre falsificações e manipulações. Para isso utiliza, além das gravuras, referências históricas e citações eruditas. O único personagem ficcional do romance, Simonini, está presente com suas falcatruas em quase todos os episódios históricos importantes da Europa do século 19. Sempre a serviço de alguma ramificação do poder político, religioso ou militar, comercializando farsas.
Para narrar as falcatruas de Simonini, o autor utiliza três vozes narrativas. Há o diário do próprio Simonini. Há as anotações de Dalla Piccola, um abade que lê o diário de Simonini e faz observações sobre os escritos. E há um narrador que procura esclarecer as coisas quando elas se tornam muito confusas e caóticas. Simonini e Dalla Piccola assumem a forma de mesma pessoa, uma com parte da memória, outra com outra parte. Um desconfia que o outro não exista, um drama que só o Dr. Freud pode resolver.
Sumonini é o típico personagem que personifica o mal. Não aquele mal apoteótico, mas o mal silencioso e sem crise de consciência. Solitário, ele pensa apenas em si mesmo. Em qualquer hipótese. Ele odeia os judeus. Como odeia as mulheres, como odeia os maçônicos, como odeia os cristãos e assim por diante. Tanto faz. Ele é aquele que coloca a mão na massa, aquele que suja as mãos.
Para haver a superioridade de alguns, é necessário que ocorra a depreciação de outros. E isso é realizado através da ação de falsários, aqueles que fabricam a realidade de acordo com os próprios interesses, ou a mando dos interesses de alguém. Ou mais especificamente, falsários que vendem realidades, comerciantes de interesses. Nada mais do que a velha história da humanidade.
Curiosamente, como na maioria das histórias onde o mal é personagem principal, em ''O Cemitério de Praga'' não aparece o contraponto. O bem não dá as caras para oferecer o outro lado da moeda. Nada. Umberto Eco, autor de vários best sellers como ''O Nome da Rosa'' (1980), ''O Pêndulo de Foucault'' (1988), ''A Ilha do Dia Anterior'' (1994) e ''Baudolino'' (2000), aposta em um único lado. E com um certo bom humor.
Serviço:
- O Cemitério de Praga
Autor - Umberto Eco
Editora - Record
Tradução - Joana Angélica D'Ávila de Melo
Páginas - 480
Quanto - R$ 49,90
Fragmento:
Quem sou? Talvez seja mais inútil me interrogar sobre minhas paixões do que sobre os fatos de minha vida. Quem amo? Não me vêm à mente rostos amados. Sei que amo a boa cozinha: ao pronunciar o nome La Tour d'Argent, experimento como que um frêmito por todo o corpo. É amor?
Quem odeio? Os judeus, me ocorreria dizer, mas o fato de eu estar cedendo tão servilmente às instigações daquele doutor austríaco, ou alemão, sugere que não tenho nada contra os malditos judeus.
Deles, sei apenas o que ensinou meu avô: ''São um povo ateu por excelência'', ele me instruía. Partem do conceito de que o bem deve se realizar aqui, não além-túmulo. Por conseguinte, agem somente para a conquista deste mundo. (...)
Sonhei com os judeus todas as noites, por anos e anos.
Por sorte, nunca encontrei nenhum, exceto a putinha do gueto de Turim, quando eu era rapaz.
(Fragmento de ''O Cemitério de Praga'', de Umberto Eco)


