LEITURA Desnorteados do destino
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de junho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Entre os escritores que se tornaram especialistas na criação de personagens desajustados, o nome do norte-americano David Goodis (1917 - 1967) merece destaque. Seus romances estão repletos de figuras que não se encaixam nos lugares que a sociedade costuma considerar correto. Figuras que foram a tal ponto espancadas pela realidade que a dor significa apenas que ainda estão vivos.
Personagens que se sentem em casa apenas dentro de bares sórdidos, enchendo a cara ao lado de outras figuras que igualmente deram errado na vida. Figuras que, se não estivessem nas páginas da ficção, estariam ancoradas em alguma sarjeta da cidade esperando o improvável fim da ressaca.
David Goodis passou maus bocados para desenvolver sua literatura. Quando morreu, com 50 anos de idade, seus livros mofavam nas estantes da livrarias. Passou a ser conhecido apenas quando suas histórias começaram a ser transformadas em filmes. Dos 19 romances que escreveu, dez ganharam versões cinematográficas. Hoje é considerado um dos grandes representantes da ''literatura noir'' ao lado de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James Cain.
Sua obra chegou ao Brasil na década de 80 com a publicação de ''A Lua na Sarjeta'' (Brasiliense, 1984), ''Atire no Pianista'' (Brasiliense, 1985), ''Sexta-Feira Negra'' (L&PM, 1989). Em seguida desapareceu das livrarias. Até recentemente seus livros eram encontrados apenas em sebos, discretamente posicionados nas últimas estantes dos últimos corredores.
Agora seus livros voltam às livrarias em novas edições ''pocket'' lançados pela Editora L&PM. Além de ''A Lua na Sarjeta'', ''Atire no Pianista'' e ''Sexta-Feira Negra'', a editora acaba de lançar ''A Garota de Cassidy'', um romance que traz as principais características da literatura de David Goodis.
''A Garota de Cassidy'' narra a história de Jim Cassidy, um sujeito bem-sucedido que, de uma hora para outra, vê sua vida abatida por uma reviravolta. De um dia para outro, tudo começa a dar errado, um erro aparece após o outro em escala geométrica. Em pouco tempo tudo o que lhe resta é vagar como vagabundo pelas ruas mais escuras da cidade, enchendo a cara e se envolvendo nas brigas mais sórdidas.
Um belo dia Cassidy arremessa sua âncora nos becos escuros do cais. Arruma emprego como motorista de ônibus e se casa com uma garota chamada Mildred. O que seria a troca do inferno pelo céu, torna-se, na realidade, a troca do inferno por outro inferno. Quando os dois não estão gastando energia na cama, estão no bar bebendo e trocando insultos, socos e pontapés.
Procurando um pouco de paz, Cassidy decide abandonar Mildred para viver com Doris, uma moça pacífica que começa a frequentador o mesmo bar. Mais do que amar Doris, Cassidy decide cura-lá do alcoolismo. O drama se instala quando a moça deixa claro que não possui nenhum interesse em deixar o álcool. Encarando o fracasso, Cassidy percebe que na realidade está deslocando sua salvação para a possível salvação do outro.
Embora seja considerado autor de romances policiais, curiosamente uma parte significativa das histórias de David Goodis não existe a figura do policial, muito menos do detetive. Crimes, conflitos, traições e brigas são todos resolvidos pelos próprios envolvidos. Invariavelmente entre as quatro paredes de um boteco. A principal característica de sua literatura está em criar atmosferas com alto poder de sedução.
Na literatura de Goodis, o bar é uma espécie de igreja onde os deslocados se dirigem regularmente em busca de paz. Mesmo que seja uma paz alucinada e violenta. Os frequentadores formam uma espécie de família onde há amor de há ódio. Onde há esperança e desilusão, sinceridade traição, confiança e desconfiança. E, acima de tudo, última dose de amizade possível.
Serviço:
- Livro ''A Garota de Cassidy'', de David Goodis. Editora L&PM, tradução de Jimi Joe, 220 páginas, edição pocket, R$ 14,00.


