LEITURA Criaturas sanguinárias
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Em tempos de guerra, sangue é aquilo que escorre dos corpos estraçalhados por bombas e balas. Em tempos de epidemia, sangue é aquilo que corre por corpos derretidos pela dor e febre. Em tempos de horror, sangue é aquilo que alimenta o senhor das trevas.
Não fazendo distinção entre os tempos, o vermelho que corre pelas veias dos homens é sempre silencioso. Como também são silenciosos aqueles que, de alguma maneira, precisam de sangue sejam soldados, doenças ou vampiros.
No imaginário universal os vampiros ocupam lugar de destaque. Estão presentes na mitologia de várias civilizações há milênios. Apesar de, nos dias de hoje, parecer brincadeira de criança, essa entidade sobrenatural tem seu grande palácio na literatura.
Um pouco desse imaginário pode ser encontrado em ''13 dos Melhores Contos de Vampiros da Literatura Universal'', coletânea que está sendo publicado pela Editora Ediouro. Organizado pelo escritor gaúcho Flávio Moreira da Costa, o livro traz as mais representativas narrativas sobre vampiros de diversos autores do séculos 19 e 20 entre eles Sheridan le Fannu, Bram Stoker, Francis M. Crawford, Richard Matheson e Anne Rice.
Embora a figura de seres que se alimentam de sangue humano seja milenar, a idéia do vampiro apareceu na literatura somente no século 18. Época em que novelas de horror começaram a desenhar a imagem de vampiro concluída posteriormente pelo escritor irlandês Bran Stoker (1847-1912) no romance ''Drácula'', a grande o obra do gênero.
Dos 13 contos da coletânea, alguns merecem destaque, como ''O Estranho Misterioso'', de autoria anônima, e ''Carmilla'' do escritor irlandês Sheridan Le Fanu (1814 - 1873). São as narrativas mais antigas presentes no livro. A primeira foi publicada originalmente em 1860, a segundo anos depois introduzindo a figura da vampira sedutora na literatura de horror segundo a lenda, ''Carmilla'' teria sido a fonte de inspiração para Bram Stoker escrever ''Drácula''. São textos que revelam que o imaginário básico do vampiro é o mesmo há mais de duzentos anos fazendo eco à imortalidade do senhor das trevas e ainda deixa o leitor com o medo atrás da orelha.
Outro conto que merece destaque é ''A Transferência'', de Algermon Blackwood (1869 - 1951), um dos escritores que cultivaram o horror psicológico como gênero. O texto narra a história em que o vampiro não bebe sangue de suas vítimas, mas retira energia. Assim, através do relato de um garoto, a figura de um homem que suga pessoas à sua volta converte-se num drama psíquico, onde o horror não caminha pelo objetivo, mas por labirintos subjetivos da mente.
Os textos selecionados para compor ''13 dos Melhores Contos de Vampiros'' mostram que a maioria das narrativas no gênero seguem uma mesma estrutura. Ela estaria resumida do tripé vampiro, vítima principal e caçador. O ponto central estaria do jogo de sedução, nos mais variados níveis, entre aquele retira o sangue e aquele que tem o sangue retirado. Um jogo onde o próprio medo é sedutor.
Esse medo sedutor seria um dos componentes do silencioso caminho do sangue. Como também são silenciosos aqueles que, de alguma maneira, precisam de sangue, sejam vampiros, doenças ou soldados.
SERVIÇO:
''13 dos Melhores Contos de Vampiros da Literatura Universal'', organizado por Flávio Moreira da Costa, Editora Ediouro, textos de Sheridan le Fannu, Mary Elizabeth Braddon, Bram Stoker, Théophile Gautier, Mary Eleanor Wilkins-Freeman, Francis Marion Crawford, Montague Rhodes, Edward Frederic Benson, Algermon Blackwood, Richard Matheson, Lafcadio Heam e Anne Rice, traduções de Adriana Lisboa, Octávio Marcondes, Renato Rezende, Celina Portocarrero, Roberto Grey, Fernanda Abreu, Rubem Mauro Machado e Marco Santarrita, 320 páginas, R$ 39,00.
''Franziska ficou aterrada; seu corpo inteiro tremia, e ela não conseguia dizer uma palavra: Woislaw notou-o.
Coragem, minha cara senhora! ele disse. Pense que está nas mãos dos céus, e que, se não for o desejo de seu Criador, nem um único fio de cabelo cairá de sua cabeça. Além disso, repito, não há perigo algum.
Bem, então eu obedeço disse Franziska, reconquistando, em certa medida, sua coragem.
O que quer ouça, o que quer que aconteça dentro do caixão prosseguiu Woislaw não deve ter qualquer efeito sobre a senhora. Enterre os pregos bem fundos, sem hesitar: seu trabalho precisa ter acabado quando minha oração chegar ao fim.
Franziska estremeceu, mas novamente se recobrou.
Há mais uma coisa disse Woislaw, hesitante ; talvez a mais difícil de todas as que propus, mas sem ela sua cura não será completa. Quando tiver feito o que lhe disse, uma espécie de ele hesitou uma espécie de líquido vazará do caixão; nesse líquido molhe seu dedo, e passe-o na ferida em seu pescoço.
Isso é horrível! exclamou Franziska. Esse líquido é sangue. Um ser humano jaz no caixão.
Um ser sobrenatural jaz ali! O sangue é o seu próprio, mas corre em outras veias.''
(Fragmento de ''O Estranho Misterioso'', conto anônimo que integra o livro ''13 dos Melhores Contos de Vampiros'')


