LEITURA Botões de flor de cerejeira
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
No imaginário ocidental, duas figuras simbólicas da tradicional cultura japonesa ocupam lugar de destaque: os samurais e as gueixas. Figuras que acabaram sendo romantizadas, das mais variadas maneiras, por aqueles que se encantavam com a imagem imediata desses dois profissionais da rígida hierarquia do país do sol nascente.
Enquanto os samurais sintetizavam um ideal de heroísmo e austeridade, as gueixas representavam a sensualidade e o prazer oriental. Dessa maneira a mente européia e americana se encarregou de criar uma ampla gama de representações que espelhavam os anseios ocultos da própria cultura ocidental.
No caso específico da gueixa, sua imagem foi atrelada à mulher cuja especialidade era conduzir os homens pelos mais extasiantes caminhos do prazer, sem nenhuma espécie de vínculo ou compromisso. E, assim, atrelada à imagem de uma refinada cortesã capaz de dominar, de maneira elaborada e artística, as ferramentas do mundo sexual.
Um livro que acaba de ser publicado pela Editora Objetiva, ''Gueixa'', procura corrigir essas distorções criadas pelo imaginário ocidental sobre a figura das gueixas tradicionais do Japão. Também procura registrar como a profissão de gueixa a exemplo do que correu com o profissão de samurai está próxima da extinção. As tradições estariam saindo da realidade para serem confinadas ao livros de história.
De autoria da antropóloga norte-americana Liza Dalby, a obra possui o mérito de traçar um painel real da tradição das gueixas a partir de um olhar tanto externo como interno e participativo. Além de estudar o assunto e entrevistar dezenas de mulheres dedicadas à profissão, seu trabalho acadêmico foi além. Ela entrou para um clã de gueixas como aprendiz e acabou atuando como gueixa nos principais centros do Japão.
Liza Dalby, autora do romance ''A Lenda de Murasaki'' (Editora Objetiva, 2001), é tida como a única mulher ocidental a torna-se gueixa com o respaldo de antigas instrutoras tradicionais do Japão. Isso aconteceu na década de 70, quando desenvolveu seu trabalho de pesquisa na cidade de Quioto, um dos poucos lugares onde a tradição das gueixas era mantida com austeridade.
Acolhida por uma senhora (''okasan'') responsável por uma casa de gueixas, Liza se submeteu ao rígido treinamento de dança, música e etiqueta. Em seguida, passou a integrar um grupo de mulheres que seguia a profissão de acordo com as normas seculares. Essa experiência deu-lhe a oportunidade de entrar na intimidade dessa solitárias mulheres que se dedicam à arte de agradar aos homens.
Segundo os relatos de Liza Dalby, definidos pela autora como ''etnografia interpretativa'', gueixas são mulheres treinadas para oferecer um pouco de companhia e diversão aos homens com algum dinheiro no bolso. Os princípios da tradição deixa claro que sexo está fora dessa diversão, embora algumas, na intimidade, chegam à categoria de amantes dos clientes. Mas a real aspiração é ter um protetor que as acolha após os 30 anos, quando precisam deixar a profissão em favor da beleza e encantos das mais jovens.
Na hierarquia social, as gueixas do passado gozavam de enorme prestígio social, sendo consideradas depositárias das artes femininas. Hoje, elas foram substituídas pelas recepcionistas de bar, que executam o mesmo trabalho só que sem auxílio das artes e de maneira despojada e efêmera. O que fica claro em ''Gueixa'' é que a atividades dessas mulheres são componentes da cultura nipônica milenar, onde os homens devem ser servidos por jovens em troca de segurança. Uma segurança que, com o decorrer dos séculos, assumiu a forma definida de ''dinheiro''.
Leitoras, ou leitores, de inclinações feministas, estão passíveis de ficarem de cabelo em pé com os relatos de Liza Dalby. E talvez atropelem as sutilezas que fazem de ''Gueixa'' um livro interessantíssimo, onde a intimidade dos personagens femininos são desvelados da casca do imaginário ocidental. Um imaginário que tende, invariavelmente, por um lado romantizar as gueixas e por outro fazer o papel de trator sobre os botões de flor de cerejeira.
SERVIÇO:
''Gueixa'' de Lisa Dalby, Editora Objetiva, tradução de S. Duarte, 360 páginas, R$ 44,90.
''As gueixas personificam justamente os aspectos da feminilidade que estão ausentes do papel de esposa, ou que lhe são somente incidentais. Onde a esposa é modesta, a gueixa é ousada. A esposa é socialmente reticente; a gueixa é espirituosa e falante. Se a esposa não possui atrativos românticos ou sensuais, a gueixa tem certo fascínio sexual e pode ser objeto de fantasia. A esposa é dedicada ao lar e à família. A gueixa não tem esses laços. Com todas essas oposições entre os dois papéis, uma gueixa casada seria realmente uma contradição.
Tanto as esposas quanto as gueixas derivam seus sustentos de suas relações com os homens; respectivamente, como maridos ou clientes. Os homens, por outro lado, atravessam livremente as linhas que separam as esferas dos dois tipos de mulher. À primeira vista, esse arranjo pareceria levar ao ciúme entre esses dois grupos, mas na verdade isso é raro. Seria inusitado para um gueixa, com seu código profissional, tentar insinuar-se na posição de esposa, exigindo do cliente que se divorcie. Uma esposa teria razão para sentir-se insegura, se o marido tivesse um caso com uma recepcionista de bar ou com uma secretária no escritório, mas provavelmente não se sentiria ameaçada por uma gueixa.''
(Fragmento de ''Gueixa'', de Lisa Dalby)


