LEITURA Beleza mortal
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Nos últimos anos de sua existência, o escritor norte-americano Herman Melville (1819 -1891) levava uma vida em completo anonimato. Poucos lembravam que ele havia escrito livros surpreendentes, como ''Type'', ''Omoo'' e ''Moby Dick'', que conquistaram milhares de leitores.
Aposentado de seu emprego de inspetor da alfândega de Nova York, passava o tempo lendo a Bíblia e Schopenhauer. Sozinho em seu escritório, começou a escrever uma história que remetia aos anos em que percorreu os mares como marinheiro de navios mercantes. Longe de ser uma narrativa de aventura pelos oceanos, tratava da dualidade cortante entre o bem e do mal nas entranhas do ser humano.
Quando morreu em 1891, o manuscrito ficou esquecido em sua gaveta. Vagou por lugares frios, úmidos empoeirados até cair nas mãos de sua neta, décadas depois. Percebendo o valor como último texto escrito por Melville, empenhou-se na publicação, em 1924, com o título ''Billy Budd''.
''Billy Budd'', que acaba de ser editado pela Cosac & Naify, narra a história do marujo Billy, cuja beleza e força encantam todos à sua volta. Uma beleza e simplicidade que instaura o equilíbrio no navio, mas também gera o germe da discórdia e da inveja.
A novela é ambientada em 1797, uma época em que a Marinha britânica, na carência de marinheiros, arrebanhava qualquer pessoa que quisesse torna-se serviçal do rei nos navios de guerra. O jovem Billy foi arregimentado, dessa maneira, para integrar a tripulação da nau Bolipotente.
Por sua beleza natural, confere novas cores ao navio. Mas um dos tripulantes, o mestre de armas Claggart, homem sombrio e intelectualizado, vê na figura de Billy um inimigo que crava as garras da inveja em sua mente. Articulado e cerebral, dá início a um plano com a intenção de aniquilar o marujo e toda sua beleza.
Ingênuo como um filhote de carneiro, Billy não se dá conta da armadilha dissimulada tramada por Claggart, que acaba acusando-o de tramar um plano de motim. Sem conseguir responder às acusações, motivadas por uma tensão causada pelo inesperado da situação, a única forma que Billy tem de se expressar, e se defender, é através de uma ação física. Desferindo um murro em seu acusador que destila mentiras, acaba por matar aquele que mente. O capitão do navio, que presencia tudo, mesmo consciente da inocência de Billy, instaura um julgamento que termina por condena-o à forca.
Vários analistas da obra de Melville reforçam a idéia de que ''Billy Budd'', em síntese, é um embate entre a civilização e a natureza. A figura do marujo Billy representaria a natureza em estado puro, onde a beleza e a força ocupa lugar de destaque. A figura de Claggart representaria a cultura civilizatória, onde a elaboração das idéias está evidente.
No embate entre as duas forças, na proa de um navio, uma espécie de ilha humana em alto-mar, culmina com a extinção de ambas. Embora o corporal tenha maior poder se sedução, o mental é mais articulado. Assim, a cultura vence a natureza, mesmo que grande parte dos homens acalentem, em seus corações, uma certa preferência pela natureza, portadora de uma beleza em estado puro.
''Billy Budd'' é narrado com uma linguagem requintada, que muitas vezes percorre caminhos descritivos característicos do século 18. Melville trabalha com o ritmo de tempo onde a lentidão é orgânica, e as associações das mais variadas origens compõem grande parte da narrativa. Uma linguagem, pautada pela abundância verbal, bem distinta daquela praticada pela literatura contemporânea.
''Billy Budd'' é uma narrativa aberta, repleta de subjetividades, onde Helman Melville deixa transparecer que o grande peso não recai totalmente entre a antagonismo da representação de Billy e Claggart. O capitão da embarcação é que carrega o peso de precisar escolher entre a civilização e a natureza. Uma escolha que, dependendo da abordagem, acaba levando ambas à morte.
SERVIÇO
- ''Billy Budd'' de Herman Melville, Cosac e Naify Edições, tradução de Alexandre Hubner, prefácio de Bernardo Carvalho, ensaio de Cesare Pavese, 160 páginas, capa dura, R$ 33,00.


