LEITURA As flores secas do sertão
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de março de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Amor e ódio são dois monstros especializados em transformar destinos em pó. E depois, com lágrimas, fazem barro para produzir objetos cerâmicos pontiagudos para o uso diário e atormentado de homens e mulheres. Sempre foi assim e assim sempre será, reza o tempo.
Histórias nas quais esses objetos aparecem espalhados pelos cantos, acalentados por fatalidades e desejos ocultos, dão à literatura a característica de uma noite misteriosa. Os contos de Ronaldo Correia de Brito trafegam nessa noite, tão misteriosa como crua, onde habitantes do sertão brasileiro respiram o pó do destino e fazem barro com o pensamento da saliva.
Nascido em 1950, na pequena cidade de Saboeiro, sertão dos Inhamuns no Ceará, Ronaldo Correia de Brito é um escritor praticamente desconhecido. Autor até então de um único volume de contos, ''As Noites e os Dias'' publicado em 1996 por uma pequena editora do nordeste seu trabalho agora começa a ganhar visibilidade com o lançamento de ''Faca'', que chega nos próximos dias às livrarias pela mãos da Cosac & Naify Edições.
Com uma narrativa atemporal e circular, Ronaldo Correia trabalha com o universo arcaico do sertão no nordeste brasileiro de maneira contemporânea. Utiliza a tradição oral do sertanejo e, ao mesmo tempo, a estrutura dos contos modernos, onde o desenrolar do enredo é parte importante e determinante do conteúdo. O resultado impressiona pelo mergulho narrativo, exato e rico que realiza uma busca na atormentada claridade das almas que aspiram sombras.
A atmosfera das histórias narradas em ''Faca'' são sempre coroadas pela aridez do sertão. Mas, na verdade, transcende essa condição geográfica e climática para jogar suas âncoras no caráter universal dos conflitos do espírito humano. Histórias onde as armadilhas tanto podem estar na ponta de um punhal como numa paixão insana, tanto no chumbo de uma bala como na vingança da solidão.
Uma das características dos contos de Ronaldo Correia está em criar personagens femininas inundadas pelas águas da solidão. Mulheres que precisam fazer de seus destinos verdadeiras armas pela existência, numa guerra que caminha em direção oposta àquela definida pelos raios de sol clareiam as sobras das necessidades ocultas que se jogam de penhascos alheias às dores da sobrevivência.
Embora as histórias narradas em ''Faca'' sejam límpidas graças a um texto maduro, estão sempre alagadas por tons enigmáticos. Para o leitor fica difícil prever os acontecimento no interior dos contos. Como se uma força oculta brotasse dos personagens não das mãos do narrador para instauração de um mundo que, pela poética de realidade, torna-se fantástico.
Formado em Medicina e radicado em Recife desde os 17 anos de idade, Ronaldo Correia antes de se dedicar ao conto, realizou vários curtas-metragens e escreveu peças teatrais em parcerias diversas. Seus textos deixam a impressão de serem trabalhados até a exaustão para chegar num ponto onde linguagem e conteúdo correm lado a lado, alheios a qualquer facilidade de aparências.
Cada um dos dez contos que compõem ''Faca'' ilustrados com belas gravuras de Tita do Rêgo Silva seguem caminhos específicos mas possuem pontos em comuns. Um deles é o papel da morte como elemento de resolução dos dramas da existência. E quando a morte não consegue oferecer uma possível resolução, o mistério se encarrega do fato, prolongando os dramas para além da morte. Seja no amor ou no ódio, monstros especialistas em transformarem destinos em pó. Sempre foi assim e assim sempre será, reza o barro.
SERVIÇO:
''Faca'', de Ronaldo Correia de Brito, Cosac & Naify Edições, ilustrações de Tita do Rêgo Silva, posfácio de David Arrigussi Jr., 176 páginas, 27,00.


