A morte é um tremendo tédio. Pelo menos para os defuntos que passam os dias deitados de costas, imóveis numa sepultura escura e silenciosa onde nada acontece.
Tudo indica que as coisas não são bem assim. Os corpos dos falecidos podem ter uma existência bem agitada. Pelo menos é o que a jornalista norte-americana Mary Roach revela em "Curiosidade Mórbida", livro lançado pela editora Paralela.
A obra traz uma longa reportagem sobre a "vida" dos cadáveres pelas mãos da ciência. Geralmente achamos que o sujeito bate as botas, entra no caixão e adeus. O corpo deixa de existir, só a alma continua sua trajetória. Mas, pelas mãos da ciência, as coisas não são bem assim, a vida dos corpos segue em frente nas situações mais inusitadas.
Morrer é desagradável, constrangedor e malcheiroso. E não há nada que o defunto possa fazer nesse sentido. Então cabe aos familiares e a ciência decidir o destino dos corpos. Um dos principais pontos abordados por Mary Roach está na necessidade da ciência em utilizar corpos como instrumento de pesquisa e aprendizado.
O impasse é que um defunto humano não é apenas um simples corpo morto como o cadáver de um rato, como uma barata falecida no canto da sala. Ele é algo mais. Experiências e aprendizados das ciências médicas necessitam apelar para a coisificação do corpo para conseguir uma consciência tranquila. Nas palavras da autora, o problema dos cadáveres é que eles se parecem demais com as pessoas: "É a razão pela qual certas pessoas preferem dizer ‘carne bovina’ em lugar de ‘vaca’. A dissecção e o aprendizado cirúrgico, assim como o hábito de comer carne, exigem um apurado conjunto de ilusões e negações. Os médicos e estudantes de anatomia precisam aprender a pensar nos cadáveres como algo totalmente desvinculado das pessoas que elas foram um dia."
"Curiosidade Mórbida" não é o tipo de livro apropriado para ser lido no café da manhã. Ou mesmo antes do almoço por leitores de estômago sensível. Um estômago de ogro é mais indicado. O capítulo sobre a decomposição dos corpos, por exemplo, pode comprometer uma boa refeição. Para equilibrar o mal-estar, Mary Roach utiliza uma boa dose de humor que funciona como Dramin.
A autora parte de informações históricas conhecidas para chegar a informações raras. Parte de como os cadáveres tiveram papel determinante na história da medicina (que envolvem roubo corpos sepultados até o uso de corpos de criminosos condenado à morte) para chegar às modernas técnicas de como resolver ecologicamente o sepultamento dos mortos.
Mas o grande foco de Mary, e onde o livro passa a ter mais sentido, está em experiências com corpos ou pedaços de corpos. Não aquelas realizadas como aprendizado médico, mas como uso industrial. O desenvolvimento de cinto de segurança e airbag pela indústria automotiva utiliza cadáveres em testes. O desenvolvimento de armas de pela indústria bélica também utiliza cadáveres para conhecer o impacto de balas e bombas. A lista é vasta.
A utilização de corpos no aprendizado de estudantes de medicina está cada vez mais sendo substituída por tecnologias virtuais. Mas ainda há procedimentos que prescindem de matéria física em nome do desenvolvimento da ciência. Os transplantes de órgãos são o melhor exemplo, não há nenhum substituto. A morte servindo a vida de maneira direta.
"Curiosidade Mórbida" entra em algumas questões éticas, mas não aprofunda o assunto, fica sempre na superfície. O interesse da autora não é esse. O objetivo está em oferecer ao senso comum curiosidades sobre um assunto considerado tabu. E levanta questões básicas como: se a maioria das pessoas segue alguma religião que acredita na vida da alma e na morte do corpo, por que a lista de doentes esperando por uma doação de órgão é tão vasta? A resposta é simples: "Nós nos submetemos ao bisturi de um cirurgião para salvar nossa própria vida, mas não para salvar a vida de um estranho."

Serviço:
"Curiosidade Móbida – A Ciência e a Vida Secreta dos Cadáveres"
Autora – Mary Roach
Editora – Paralela
Tradução – Donaldson M. Garschagen
Páginas – 272
Quanto – R$ 44,90 e 30,90 (e-book)

A cabeça de uma pessoa tem mais ou menos o peso e o tamanho de um frango pronto para assar. Eu nunca tivera ocasião de comparar, porque nunca tinha visto uma cabeça numa bandeja. Mas aqui há quarenta cabeças, cada qual em sua assadeira, com o rosto virado para cima, pousadas sobre uma coisa parecida com um pequeno comedouro de cachorro. As cabeças estão ali para treinamento de cirurgiões plásticos – dois por cabeça. Estou assistindo a um curso de atualização em anatomia facial e lifting, patrocinado pelo centro médico de uma universidade do sul dos Estados Unidos e ministrado pelo mais requisitados especialistas em cirurgia estética do país. A cirurgia, mesmo com paciente mortos, é uma atividade muito organizada. Cada uma das quarenta mesas dobráveis cobertas de tecido plástico lilás tem no centro uma assadeira. Afastadores e retratores de pele estão alinhados de maneira precisa, como os talheres de um restaurante. O tom lilás foi escolhido por ser uma cor calmante. Fico surpresa ao saber que homens e mulheres que passam a vida esticando pálpebras e fazendo lipoaspiração precisem de coisas calmantes, mas cabeças cortadas podem ser desconcertantes até mesmo para profissionais. Sobretudo cabeças frescas ("frescas" quer dizer que não foram embalsamadas). As quarenta cabeças pertencem a pessoa que morreram havia pouco dias e por isso ainda têm muito do aspecto que tinham quando essas pessoas estavam vivas. Até o momento, não se vêem os rostos. Estão cobertos por panos brancos, à espera da chegada dos cirurgiões. Quem entra na sala vê apenas cocurutos, raspados com máquina zero. É como se víssemos fileiras de velhos reclinados nas cadeiras de uma barbearia, com uma toalha quente no rosto. A situação só começa a ficar sinistra quando você vai passando entre as fileiras. Agora se vêem cotos, e não estão cobertos. São sangrentos e irregulares. Eu esperava algo cortado com cuidado, como a borda de um presunto de delicatéssen. (De "Curiosidade Móbida", de Mary Roach)
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