A imagem mais comum do sentimento amoroso é aquela em que o amor aparece como instrumento de supressão da solidão. A paixão, nesse caso, eliminaria o solitário existir, instaurando o aconchego como o maior de todos os bens.
A imagem menos comum do amor é aquela que faz do sentimento amoroso um portal de entrada para a solitário, amargo. Nesse caso, amar seria estar só. E o único aconchego possível, estaria na solidão, o mais desprezado de todos os bens.
Em ''Minha Querida Sputnik'', o escritor japonês Haruki Murakami escolhe o amor como embrião da solidão para contar a história de três personagens envolvidos num abismo amoroso. Envolto em questões existenciais, cada um busca uma utópica felicidade com os sentimentos aforados em dores.
O narrador de ''Minha Queria Sputnik'' é K, um jovem professor que acaba de deixar a faculdade. Ele apresenta a história de Sumire, colega de escola que abandona tudo para se dedicar à literatura. Amigos íntimos, mantém uma relação conturbada, já que K a ama como mulher e Sumire o ama como amigo.
Admiradora de Jack Kerouac, Sumire leva uma vida displicente, totalmente voltada ao sonho de ser escritora, alheia a todo o resto. Mas, ao mesmo tempo, acredita que falta a loucura da paixão em sua vida para que seus escritos transpirem intensidade. Isso até o belo dia em que conhece uma elegante e sofisticada mulher chamada Miu, casada e 17 anos mais velha que ela. Sem nunca ter se apaixonado por nenhum homem, a jovem Sumire se vê amando perdidamente Miu, numa verdadeira revolução tanto sexual - pela descoberta da homossexualidade - como existencial.
A jovem Sumire se atira de corpo e alma em direção de Miu, tendo como seu confidente K, que sofre com o papel de amigo ao invés de amante. Ao ser atropelada pela paixão, Sumire não consegue mais escrever uma linha, sua energia muda de foco e sua literatura fica à deriva. E quando é recusada pelo objeto de seu amor, caminha pela solidão absoluta para tentar manter-se viva.
As três personagens de ''Minha Querida Sputnik'' vivem, cada um a seu modo, a experiência de que o amor é o caminho da solidão. Com ou sem traumas anteriores, descobrem que sozinhos estão mais seguros. Mas também sabem, através da melancolia, que o amor sempre baterá na porta com mãos e pés.
Embora seja composto por uma narrativa simples e direta, o romance apresenta um trabalho elaborado em sua estrutura. O autor entrega as informações aos poucos, caminhando para um sentimentalismo sem regras definidas. As personagens sempre caminham para em busca de um auto-entendimento. Um processo que raramente comporta alegrias.
Lançado pela Editora Objetiva, ''Minha Querida Sputnik'' é o segundo romance Haruki Murakami publicado no Brasil - em 2001 a Editora Estação Liberdade publicou o romance ''Caçando Carneiros''. Nascido em Kyoto, em 1949, o escritor cresceu na cidade portuária de Kobe, onde fez seus estudos e integrou o movimento estudantil contra a guerra do Vietnã. Após deixar a universidade, abriu um bar especializado em jazz. Trabalhou como tradutor de romances de língua inglesa, morando vários anos na Europa e Estados Unidos. Retornando ao Japão, na década de 90, fixou-se em Tóquio.
Um dos nomes mais populares da atual literatura japonesa, Murakami retrata em suas histórias o Japão pós-moderno, onde as tradições são guardadas em empoeiradas cristaleiras. Incorporando a cultura pop em seus romances, revela personagens de um Japão globalizado em meio a crises existenciais dos mais variados tipos.
Serviço:
''Minha Querida Sputnik'' de Haruki Murakami, Editora Objetiva, tradução de Ana Luiza Dantas Borges, 236 páginas, R$ 34,90.

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