Nem sempre, como normalmente se pensa, o amor segue em linha reta pelo caminho do bem. Em vários casos, o amor percorre trilhas tortas e irregulares, tropeçando em todo tipo coisa, inclusive no mal.
Da mesma maneira, nem sempre a liberdade segue em linha reta pelo caminho da conquista e satisfação. Em alguns casos, a liberdade percorre corredores frios e escuros, apavorada com a possibilidade de perder o reconfortante cárcere.
Essa dimensão do amor e da liberdade, desprezada pelo senso comum, é um prato cheio nas mão do escritor William Faulkner (1897-1962) no romance ''Palmeiras Selvagens''. Publicado originalmente em 1939, a obra está sendo lançada pela Cosac & Naify Edições.
''Palmeiras Selvagens'' é um belo exemplo por que Faulkner é um dos grandes nomes da literatura norte-americana do século 20. Ao lado de Ernest Hemingway (1899-1961), deu novo fôlego à prosa americana, deixando marcas que permaneceram visíveis e admiradas até os dias de hoje. A exuberância narrativa, sempre pautada pelo conflito interno e externo, é uma de suas grandes marcas.
Em ''Palmeiras Selvagens'' Faulkner coloca duas histórias lado a lado, em capítulos alternados. Completamente independentes, elas aparentemente não se tocam, mas os conteúdos se complementam como os dois lados da moeda. O objetivo era que uma história funcionasse como antítese da outra. Assim, as duas narrativas se cruzam subjetivamente e oferecem uma dimensão mais completa e complexa do amor e da liberdade uma se contrapondo à outra.
Uma das narrativas, ''Palmeiras Selvagens'', que dá título ao livro, apresenta uma intensa e conturbada história de amor entre Harry e Charlotte. Para viverem a paixão que os consome, deixam para trás tudo que possuem Charlotte o casamento e as filhas, Harry a profissão. Passam a viver de maneira errante, sem lugar fixo, com mínimo de dinheiro, recusando o ideal de família que aniquila o amor com suas rédeas. Desprezando convenções, entram num turbilhão que tem grandes possibilidades de terminar em dor e tragédia. Mesmo assim, apostam todas as fichas na paixão com a consciência de que amor e dor são duas faces de um único sentimento.
A outra narrativa, ''O Velho'', apresenta a história de um presidiário que, durante uma grande inundação do rio Mississipi, é encarregado de resgatar uma mulher grávida isolada. A violência das águas faz com que ele fique à deriva com a mulher num pequeno barco durante dias. Com uma ótima oportunidade de fuga, ele utiliza todas suas forças, de maneira atormentada, para voltar à prisão. Isso porque sente-se muito mais livre encarcerado do que solto no mundo. Um grande amor, posteriormente revelado, se apresenta como origem de sua grande tragédia.
Assim, de uma lado temos pessoas apostando tudo na liberdade, até mesmo se colocando à disposição da própria morte e do padecimento da liberdade. De outro lado, pessoas apostando tudo na escravidão, colocando a vida em jogo para permanecer confinado, numa espécie de segurança da dor. Duas escolhas em eterno conflito com o próprio destino, motivadas por sentimentos diferentes e nem sempre antagônicos. Em ambas alternativas, o sofrimento é a quintessência da existência.
''Palmeira Selvagens'' oferece uma amplo leque de análises e sensações. Faulkner constrói uma atmosfera opressiva e alucinada onde a claridade e a razão, em suas possibilidades do acaso, aparecem aos poucos. E por mais que se revelem, têm consciência de que o ser humano, ao furar uma camada que oprima, ou que deseje, encontra logo em seguida uma outra camada. E segue assim, camada após camada em direção ao nada. E a dor é preferível ao nada.
SERVIÇo:
''Palmeiras Selvagens'' de William Faulkner, Cosac & Naify Edições, tradução de Newton Goldman e Rodrigo Lacerda, 296 páginas, capa dura, R$ 37,00.

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