LEITURA A morte como necessidade da vida
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A principal virtude que se espera de um escritor é capacidade de surpreender o leitor. Deslocá-lo de caminhos surrados e esperados para lugares ermos e indefinidos. Despertá-lo para novos estímulos mentais como se desvendasse sentimentos ocultos e escondidos no fundo do poço da condição humana.
Uma virtude maior, seria a capacidade de surpreender o leitor habituado com sua obra e, mesmo assim, ainda sente o prazer de novas descobertas. Sérgio Sant'Anna é um desses escritores. Isso fica evidente em seu novo livro, ''O Vôo da Madrugada'' lançado pela Editora Companhia das Letras.
Embora desconhecido do grande público, Sant'Anna é um dos grandes criadores da literatura brasileira contemporânea. Com uma linguagem ousada e consistente, é prosador que percorre os porões do homem contemporâneo um desesperado animal procurando um canto para descansar sem nunca encontrá-lo. Aos 62 anos de idade, não faz da escrita um lago calmo repleto de cisnes serenos, mas uma floresta onde as feras mastigam os próprios instintos com olhos inflamados.
Sem publicar um livro há cinco anos (o último lançamento foi a novela ''Um Crime Delicado'', em 1997) Sérgio Santa'Anna reaparece arremessando um tijolo na testa do leitor, deixando-o atordoado, mas completamente lúcido. ''O Vôo da Madrugada'' reúne 15 contos e uma novela que se enveredam por diferentes linguagem. A obsessão reveladora dos personagens é um ponto presente na maioria dos textos. Um impulso que invariavelmente culmina no beco sem saída da morte. A morte não como dor, mas como uma necessidade da vida.
''O Gorila'', a narrativa mais longa do volume, narra a história de um ex-dublador de filmes de televisão. Solitário, passa o tempo telefonando para desconhecidos, deixando recados em secretária eletrônicas sob o pseudônimo de Gorila. Mesmo mantendo-se anônimo, torna-se um pessoa íntima de várias pessoas. Num misto de confidente e provocador, cria uma rede de relações que trafega entre o amor, o ódio e o acaso.
Quando o Gorila morre em situação melancólica, a polícia e a imprensa passam a se interessar pelo caso e descobre sua identidade secreta. Aos poucos as pessoas que recebiam as ligações surgem para auxiliar no entendimento da relação entre o homem e o personagem. Uma complexa teia vai sendo revelada com a participação do próprio autor, que apresenta variações dos fatos, opções de determinam a condução da história.
Esse recurso de utilizar o narrador (ou o autor) como elemento da história narrada, se prolonga em vários contos de ''O Vôo da Madrugada''. Sant'Anna incorpora o ato da escrita, da criação literária, como elemento da própria narrativa. A angústia do escritor, ou múltiplas opções que ele possui nas mãos também passam a fazer parte da obra de maneira deliberada. A primeira vista isso pode parecer ousadia, ou experimentação, mas nas mãos de Sérgio assume a forma de maturação do verbo, uma intimidade com a literatura.
Embora os temas abordados nos textos revelem surpresas sedutoras, vão além desse conceito. A condução que o autor desenvolve nas narrativas também converte-se em conteúdo. Em todos os contos de ''O Vôo da Madrugada'' isso fica evidente. Exemplo claro e acessível pode ser encontrado em ''Um Conto Nefando?'', texto que apresenta uma mãe sendo violentada pelo jovem filho drogado.
Acompanhada de toda sedução oculta do incesto, a mãe percebe, no ato sexual, que se oferecer resistência ao filho, a culpa do acontecimento desabará sobre a consciência dele. E isso pode gerar algo irreparável. Com a intenção de preservá-lo de tal fardo que pode se tornar fatal, passível de suicídio, a mãe aceita a relação com o objetivo de dividir a culpa com o filho. Assim, o amor torna-se uma espécie de álibi em que o silêncio dará sentido.
Outro exemplo pode ser encontrado em ''O Vôo da Madrugada'', que dá título ao livro. Narrando a experiência do homem que, optando por voar de madrugada, se vê dentro de um avião especial que transporta os restos mortais dos tripulantes de um acidente aéreo ocorrido no dia anterior. Morte e vida se misturam na percepção do personagem. Quando a narrativa parece apontar para determinada direção, acontece justamente o contrário. O drama deixa de ser externo para se configurar como interno.
A capacidade de Sérgio Sant'Anna em criar textos inundados de originalidade encontra em ''Um Conto Obscuro'' um campo fértil. Mesclando o teor ensaístico, a memória, a ficção e a filosofia da junção de todos eles mais a acuidade da linguagem, o autor ergue uma narrativa potencializada, onde a poesia sobe nas costas da filosofia e dispara em direção à liberdade em múltiplas associações. Um belo exemplo de como a linguagem pode se unir à carne em meios às contrações da vida.
Serviço
- ''O Vôo da Madrugada'' de Sérgio Sant'Anna, Editora Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 32,00.


