LEITURA A mágica do impossível
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
O escritor mineiro Murilo Rubião fez história na literatura brasileira com uma produção relativamente pequena. Ao morrer, com 75 anos, toda sua produção estava reunida em apenas 3 livros. Publicou outras obras com as mesmas histórias reescritas, com outros títulos, nome de personagens trocados ou, em alguns casos, com finais alterados. Sua insistência em escrever e reescrever seus textos, alterando-os mesmo depois de publicados, era defendida como uma maneira de reelaborar a linguagem até a exaustão, numa busca desesperada de clareza, para tornar o conto o mais real possível diante do absurdo.
Murilo Rubião é considerado o primeiro escritor fantástico na literatura brasileira. Gênero que posteriormente ganhou força entre os escritores latino-americanos. Sua literatura possui uma estreita semelhança com a do escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924). O detalhe é que Rubião somente conheceu a obra de Kafka depois de ter publicado seus dois primeiros livros. O primeiro a notar a semelhança entre ambos foi Mário de Andrade.
Rubião publicou seu primeiro volume de contos, ''O Ex-Mágico'', em 1947. Posteriormente mudou o nome do livro para ''O Pirotécnico Zacarias''. Sua segunda obra, ''A Estrela Vermelha'', saiu em 1953. Posteriormente também alterou o título para ''A Casa do Girassol Vermelho''. Seu derradeiro livro, ''O Homem do Boné'', foi lançado no início da década de 60.
Na próxima semana a editora Companhia das Letras coloca nas livrarias um volume com os três livros reunidos. Em formato de bolso, ''Obra Completa'' traz os 33 contos escritos por Murilo Rubião. Nas histórias criadas pelo escritor, o fantástico e o absurdo materializam-se em realidade. Eles revelam, invariavelmente, situações que caminham para a total ausência de solução. Qualquer tipo de resolução apresenta-se cada vez mais distante, praticamente impossível. Apesar de usar epígrafes bíblicas em todas suas histórias, não há nenhum tipo de salvação para seus personagens. Eles estão condenados à repetição e à metamorfose constante. Com ironia crítica, os contos revelam impossibilidade da realidade segundo os padrões humanos.
Embora seus textos estivessem carregados de situações extraordinárias, Murilo Rubião era um homem comum, pacato, típico mineiro quieto em seu canto. Nasceu em julho de 1916 na pequena Carmo de Minas e depois se transferiu para Belo Horizonte, onde se formou em Direito e trabalhou em jornais, revistas e rádios da capital mineira. A partir da década de 40 entrou para o mundo do funcionalismo público trabalhando em vários setores de órgãos mineiros. Chegou a ocupar, em 1952, o cargo de chefe de gabinete do então governador Juscelino Kubitschek. Faleceu em 1991, deixando uma frase que resumia sua biografia: ''Não me casei, não tive filhos, não plantei árvores. Apenas alguns arbustos.'' E 33 contos de tirar o chapéu.
Serviço
- Obra Completa
Autor - Murilo Rubião
Editora - Companhia das Letras
Quanto - R$ 24 (232 págs.)
Definhava-lhe o corpo, enquanto lhe crescia assustadoramente o ventre. Desconfiado de que a ausência de pedidos de minha mulher poderia favorecer o aparecimento de uma nova espécie de fenômeno, apavorei-me. O médico me tranquilizou. Aquela barriga imensa prenunciava um filho.
Ingênuas esperanças fizeram-se acreditar que o nascimento da criança eliminasse de vez as estranhas manias de Bárbara. E suspeitando que a sua magreza e palidez fossem prenúncio de grave moléstia, tive medo de que, adoecendo, lhe morresse o filho do ventre. Antes de tal acontecesse, lhe implorei que pedisse algo.
Pediu o oceano.
Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando uma longa viagem ao litoral. Mas, frente ao mar, atemorizei-me com seu tamanho. Tive receio de que minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido, e lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano.
(Fragmento do conto Bárbara que integra o livro Obra Completa de Murilo Rubião)


