LEITURA A indústria da felicidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Se por acaso Karl Marx levantasse do túmulo numa manhã alegre de domingo e entrasse numa livraria qualquer, grande ou pequena, ficaria chocado. Entre as frases de espanto que pronunciaria, com certeza alguma soaria como ''os livros de auto-ajuda são o ópio do povo''.
Fatalmente o velho Marx voltaria rapidamente para a cova desiludido, sem ao menos levantar um teoria sobre o processo de industrialização da felicidade. Nem se lembraria de traçar pressupostos sobre a deificação ou o fetiche da felicidade enquanto produto sujeito às leis de mercado. Talvez só a sátira seria capaz de dar conta do assunto.
E foi isso que o escritor canadense Will Ferguson percebeu e escreveu um romance chamado ''Ser Feliz'' (a palavra feliz como marca registrada). Depois do polêmico ''Por Que Odeio os Canadenses'', decidiu direcionar suas ácidas armas satíricas contra a poderosa indústria norte-americana da felicidade, onde os livros de auto-ajuda ocupam lugar de destaque.
''Ser Feliz'', que está sendo publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras, é uma crítica bem-humorada à felicidade apregoada pela indústria capitalista. Um componente da vida moderna que tornou-se um produto falacioso ao alcance de toda e qualquer pessoa com dinheiro no bolso. Uniformizando o ser humano da maneira mais baixa, a felicidade assume a forma de uma espécie de praga que pode colocar um fim à humanidade.
O herói de ''Ser Feliz'' é Edwin, funcionário de uma grande editora de livros de auto-ajuda. Pressionado para editar um best-seller para a nova temporada, acaba publicando o manuscrito de um escritor desconhecido, um livro sem pé nem cabeça que promete a felicidade para toda e qualquer pessoa.
O que seria mais um livro entre milhares de outros, torna-se um problema. Pelo menos aos olhos de Edwin, o único que tem a dimensão do estrago. Isso porque em pouco tempo o livro ''O Que Aprendi na Montanha'' torna-se um sucesso de vendas, mesmo sem nenhum marketing. Em pouco tempo, milhões e milhões de exemplares são vendidos. Todos que lêem a obra tornam-se felizes.
A obra torna-se primeiro e único livro de auto-ajuda que realmente funciona, a fórmula perfeita. As pessoas param de fumar, de beber, de engordar, de se matar por futebol, de brigar com a esposa, com o vizinho, com o patrão, etc. Começam a ganhar dinheiro, a ter orgasmos múltiplos, emagrecer, a jogar o estresse no lixo, aceitar a si mesmo como realmente são, etc.
Assim, a economia do país começa a entrar em colapso. As indústrias de cigarro e bebida são as primeiras entrar em falência. Em seguida, entram em colapso o comércio de produtos de beleza, as redes de fast-food, as loterias, o esporte competitivo, a indústria de agrotóxicos e calmantes. O consumo de bens supérfluos caminha ao desaparecimento. Felizes, as pessoas deixam até mesmo de ler e escrever livros de auto-ajuda levando a bancarrota editoras e gráficas.
Então o mundo torna-se chato. A população transforma-se num rebanho de vacas-de-presépio. Sentindo-se responsável situação, Edwin parte em busca do autor desconhecido de ''O Que Aprendi na Montanha''. Sua intenção é convencê-lo a escrever outro livro sobre a importância da infelicidade na vida das pessoas, numa tentativa de preservação da humanidade.
Em ''Ser Feliz'', Will Ferguson, com ironia, apresenta a visão de que no mundo atual foi criada a necessidade de felicidade e que a indústria rapidamente criou uma infinidade de produtos para suprir essa necessidade. Mais que isso, a felicidade tornou-se em si um produto comercial como qualquer outro.
Ferguson, com sarcasmo, defende a idéia de que o grande sentido da felicidade não está em encontrá-la, mas em buscá-la. A corrida em direção da felicidade é que tornaria as pessoas melhores, não a felicidade em si. E um mundo repleto de seres humanos felizes seria um mundo insuportável, uniformizado e monótono. ''Pessoas infelizes são infelizes à suas própria maneira. Pessoas felizes são felizes da mesma maneira.''
SERVIÇO:
''Ser Feliz'' de Will Ferguson, Editora Companhia das Letras, tradução de Manoel Paulo Ferreira, 398 páginas, R$ 41,00.


