LEITURA A batalha das pernas
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Seu nome era Alberto, mas era mais conhecido como Homem de Lata. Ou simplesmente Lata. Ele morava na rua de cima e sempre vinha jogar bola na nossa rua. Como não podia correr atrás da bola, sempre ficava no gol. Pegava as bolas de uma maneira bem particular, a seu modo. Era um goleiro determinado.
Usava uma aparelho de metal na perna direita com um sapato ortopédico preto. Suas pernas eram visivelmente diferentes. Uma forte e robusta, outra magra e retorcida. Desaparecia regularmente e voltava abatido. Dizendo que não aguentava mais médico nem hospital. Todo mundo queria concertar sua perna e era ele que pagava o pato.
Nunca soubemos que doença o Lata realmente tinha. Para nós, ele era daquele jeito e bastava. Após muito tempo, depois de ter abandonado a infância, descobri do que o Lata sofria. Poliomielite. Uma doença silenciosa, comum na época, transmitida por vírus que afetava crianças pequenas atrofiando os músculos e os nervos das pernas.
O contato direto com a poliomielite fez parte da infância de muita gente. Sua prevenção passou a ser uma bandeira mundial somente na década de 80. Em 1988 a Organização Mundial da Saúde e a Unicef lançaram a Campanha Mundial da Erradicação da Pólio. A meta é de que a doença erradicada do mundo até 2005. Para isso uma verdadeira batalha vem sendo travava por entidades e voluntários.
Esse processo de erradicação da doença ao longo dos anos é o tema do novo livro do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, um dos grandes nomes da fotografia mundial. ''O Fim da Pólio'' está sendo lançado simultaneamente no Brasil pela Editora Companhia das Letras , Itália, Estados Unidos e Portugal.
As imagens Sebastião Salgado, realizadas no Paquistão, Índia, Somália, Sudão e República Democrática do Congo, países de grandes redutos do vírus, focalizam dois universos. Um retratando as vítimas da poliomielite, outro o trabalho das pessoas no esforço de vacinação de crianças em situações limites. De um lado, as consequências da pólio. De outro, a tentativa de evitá-la. As fotos foram todas realizada em 2001, ano da grande cruzada internacional pela imunização de crianças não vacinadas. Miséria, guerras e conflitos étnicos são atualmente as grandes barreira para a vacina desenvolvida por Albert Sabin em 1957.
A estética do fotógrafo mineiro presente em ''O Fim da Pólio'' é aquela que o consagrou mundo afora, onde as imagens em preto-e-branco são coroadas por uma luz realista. Talvez seja o livro mais humanitário de Salgado. O texto de Siddharta Dube, ao lado de vários depoimentos de várias pessoas experimentaram situações extremas no processo de vacinação, acrescentam à obra um caráter documental pontuado pelo idealismo humanitário.
Segundo dados oficiais, a pesquisa e produção de vacinas representam apenas cerca de 5% de todo mercado farmacêutico. Ou seja, a atenção voltada ao lucro está muito mais voltada a pesquisa e produção de drogas que curem doenças do que com vacinas que evitem as doenças. Parece muito mais uma sangrenta lei do mercado do que princípios humanitários.
Voltando na história do Lata, ele passou por uma série de cirurgias e teve uma vida como a maioria das pessoas. Tempos atrás contraiu um outro vírus silencioso que não foi tão condescendente como o da pólio. A Aids o derrubou friamente. Histórias como a de Alberto parecem dizer que quando uma batalha termina, logo em seguida outra tem início.
Serviço:
- ''O Fim da Pólio - A Campanha Mundial Para a Erradicação da Doença'' de Sebastião Salgado, Editora Companhia das Letras, texto de Siddharth Dube, prefácio de Kofi A. Annan, depoimentos de Mark Dennis, Christine McNab, Carole Naggar, Katja Schemionek e Chris Zimmerman, tradução de Claudio Marcondes, 160 páginas, capa dura, R$ 89,00.


