Ernst Junger (1895 - 1998) é o tipo de escritor mais conhecido por sua biografia do que pela obra que criou. Mesmo considerado um dos grandes escritores da literatura alemã do século 20, é mais lembrado como ''queridinho'' de Adolf Hitler. Mesmo acusado de participar de um plano para assassinar do líder nazista, foi poupado de punições em nome de sua literatura.
Ainda jovem Ernst Junger entrou de cabeça na Primeira Guerra Mundial. Por sua ousadia como soldado recebeu um punhado de medalhas e condecorações. A partir dos diários de guerra, escreveu seu primeiro livro, ''Tempestade de Aço'', onde enaltecia a virtude das batalhas sangrentas. Em seguida integrou grupos paramilitares alemães de extrema direita até se engajar no regime nazista.
Quando a Segunda Guerra Mundial tomou proporções assustadoras, a ficha de Ernst Junger caiu. Abandonou suas atividades bélicas e se refugiou num pequeno vilarejo. Nessa época escreveu sua obra mais cultuada, ''Nos Penhascos de Mármore'', publicada originalmente em 1940.
Em ''Nos Penhascos de Mármore'' Junger construiu um alegoria de forte impacto sobre a ascensão da barbárie sobre o mundo civilizado. Utilizando elementos simbólicos, focalizava a ascensão da violência sanguinária dos regimes totalitários e as terríveis consequências: a substituição das artes e das ciências pela brutalidade do poder.
''Nos Penhascos de Mármore'' acaba de ganhar sua primeira edição brasileira. Lançado pela editora Cosac Naify, é aquele tipo de romance que começa com páginas alvas e tranquilas. Aos poucos, o vermelho e o desespero começam a tomar conta do papel. Acompanhando a chegada do mal, o leitor se vê imerso em mar de sangue. Ao final, está procurando algum fiapo de ar para pensar.
O narrador é um botânico que, ao lado do irmão, habita um eremitério no alto de uma montanha imaginária. A atividade dos dois, quase religiosa, está centrada na catalogação das plantas da região. Do alto do penhasco recebem informações esparsas de que uma espécie de mal está tomando conta do lugar. Trata-se um sujeito nomeado apenas de ''monteiro-mor'', um tirano sedento de poder que está invadindo todos os países fazendo uso de um exército de animais famintos de sangue.
O narrador presencia o mal fechando o cerco, realizando as atrocidades inomináveis, dividido entre a realidade das plantas e a realidade do mundo. O relato é pontuado basicamente por dois focos descritivos, de um lado a apresentação do mundo natural e suas belezas, de outro, a revelação das atrocidades na guerra humana pelo poder.
Em ''Nos Penhascos de Mármore'' Ernst Junge coloca a ciência e a estética como contraponto às atrocidades das guerras impostas por regimes autoritários. Descrições da beleza das plantas e descrições das atrocidades caminham lado a lado. Essa é uma escolha deliberada do autor. Num primeiro momento, dá a entender que o conhecimento é capaz de suplantar a maldade dos genocídios. Num segundo momento, dá a entender que a brutalidade, em sua força cega, é capaz de destruir tudo aquilo que encontra pela frente.
Alguns elementos naturais presentes no romance foram inspirados na fauna e flora brasileira. Na visita que fez ao Brasil em 1935, Junger colocou em ação sua paixão pela entomologia e botânica registrando tudo que viu pela frente. As jararacas, por exemplo, presentes na narrativa, tomaram forma a partir das serpentes que Junger viu numa visita ao Instituto Butantã. Serpentes que possuem toda uma carga simbólica dentro da subjetividade do romance.
SERVIÇO
- Nos Penhascos de Mármore
Autor - Ernst Junger
Editora - Cosac Naify
Tradução e posfácio - Tercio Redondo
Apresentação - Antonio Candido
Páginas - 200 (capa dura)
Quanto - R$ 49


Tratava-se dos porões sobre os quais se erguem os castelos das tiranias e a partir dos quais se vêem evolar as fragrâncias de suas festas: antros fétidos da espécie mais sinistra. Dentro deles, por toda a eternidade, uma canalha abjeta se regozija de modo pavoroso na profanação da dignidade e da liberdade humana. Calam-se então as musas, e a verdade começa a vacilar como a chama exposta aos ventos de tempestades inclementes. Vêem-se os fracos retrocederem antes de se terem formado as primeiras nuvens, e mesmo a casta dos guerreiros começa a hesitar quando vê o bando de larvas erguendo-se das profundezas e tomar os bastiões. Neste mundo o ânimo guerreiro permanece num patamar de segunda grandeza: apenas os mais eminentes entre nós logram penetrar a cidadela do horror. Eles sabem que as imagens vivem tão-somente no coração e as atravessam como se elas fossem reflexos irreais, até alcançar os esplêndidos portais da vitória. Então, justamente por meio das larvas, eles são magnificamente exaltados em sua realidade.
(Fragmento de 'Nos Penhascos de Mármore' de Ernst Junger)

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