Geralmente acreditamos que basta às pessoas serem boas e promoverem o bem que o mundo será uma maravilha. Ou que basta às pessoas desejarem um mundo melhor para o mundo ser melhor, lindo e aconchegante. Ou, ainda, que basta apenas otimismo e autoestima para que as estrelas do céu brilhem com um sorriso nos lábios. Ou que basta lutar contra as injustiças que a sociedade será, num passe de mágica, uma sociedade perfeitamente justa.
Auto-engano. Tudo é incerto. Tudo sai do controle. Geralmente acreditamos em inverdades para colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. O escritor norte-americano George Saunders transforma o auto-engano num trabalho literário revelador no livro de contos "Dez de Dezembro" lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
Publicado originalmente em 2013, o livro virou uma febre entre a crítica especializada e o leitor comum americano. Vendeu como água, ganhou prêmios e fez de George Saunders um dos autores mais incensados da recente literatura norte-americana.
"Dez de Dezembro" reúne 10 contos que retratam a classe média e seu desejo de viver de acordo com valores morais do bem, vida próspera para os filhos, dinheiro no bolso e saúde para dar e vender. Com uma boa dose de sarcasmo, as histórias revelam as infindáveis contradições que abarcam as aspirações do rebanho.
Os contos de George Saunders lembram elementos da literatura de autores como John Cheever, David Foster Wallace e Raymond Carver. A comparação é inevitável. A diferença está no tratamento da ironia e do sarcasmo. E também nas formas de linguagem que o escritor utiliza em cada conto de acordo com o contexto. Nada é entregue gratuitamente, fatos reais e fatos mentais se misturam.
As narrativas de George Saunders são episódios narrados como histórias completas. A parte representa o todo com fatos reais e fatos mentais se misturando na leitura da existência em família e sociedade.
No conto "Filhote", uma mãe de família com recursos parte na companhia dos filhos para adotar um cachorrinho. Ela ama o bairro, os vizinhos, a cidade, os animais, o mundo, o universo, tudo. Mas, ao entrar na casa de periferia que está doando o cãozinho, um nojo nasce em sua mente, corpo e memória. Todos seus ideais de dar aos filhos bondade, ética, carinho e dedicação, entram em choque com a simples realidade. Fugindo da situação, resolve não adotar filhote que, sem um dono, será sacrificado.
No conto "Os Diários", um pai de família vive o drama de querer dar à mulher e aos filhos uma ótima condição de vida com toda ostentação possível. Mas com o emprego que possui isso não é possível. Até que um belo dia ganha na loteria e então pode realizar seus desejos. Para presentear a filha, o sujeito contrata um jardim ornamentado com pessoas com dificuldade de sobrevivência, uma nova moda, jardins decorados com estátuas vivas. O problema é que a outra filha, uma militante dos direitos humanos, resolve dar um fim nas estátuas e o sujeito é obrigado a pagar uma multa contratual que dizima seu prêmio da loteria.
As relações entre pais e filhos dos tempos atuais é um dos focos na literatura de George Saunders. No ímpeto de querer dar aos filhos aquilo que os pais não tiveram, ou que novas condutas indicam, mães e pais transformam os filhos em investimentos.
Nas narrativas de "Dez de Dezembro" sempre há algum tipo de competição. Chega a ser hilário, ou desesperador, uma oração proferida por um dos personagens: "Senhor, dai-nos mais. Dai-nos bastante. Ajudai-nos a não ficar atrás de nossos semelhantes. Isto é, ajudai-nos a não ficar mais atrás ainda de nossos semelhantes. Pelo bem das crianças. Não quero vê-las estigmatizadas por ficar tão atrás dos outros."
Há uma estupidez, nas personagens, em dizer sim sempre nas situações atreladas aos padrões econômicos e sociais. Há o dizer sim ao mundo que é vendido padrão e objeto de desejo. Há o dizer sim para toda e qualquer tentativa de auto-engano com o objetivo de deixar a consciência em estado de letargia. E a palavra "não" se revela como uma abstração desprezível entre embalagem e conteúdo.

Serviço:
"Dez de Dezembro"
Autor – George Saunders
Editora – Companhia das Letras
Tradução – José Geraldo Couto
Páginas – 244
Quanto – R$ 42 e R$ 29,50 (e-book)

Abbie deu um gritinho estridente, "Adorei Mamãe, quero ele!", enquanto o cachorrinho lançava um olhar embaçado de dentro da sua caixa de sapatos e a dona da casa saía recolhendo um-dois-três-quatro cocôs de cachorro do tapete.
Uau, que superexcursão de estudos para as crianças, pensou Marie, haha (a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia, a panela de macarrão na prateleira de livros com uma bengala de açúcar saltando inexplicavelmente para fora), e embora algumas pessoas em seu lugar tivessem sentido nojo (do pneu em cima da mesa da sala de jantar, do modo como a carrancuda cadela-mãe, a provável cagona da casa, arrastava agora a bunda sobre a pilha de roupas no canto, sentada, de pernas abertas, uma expressão idiota na cara), Marie se deu conta (resistindo ao impulso de correr até a pia e lavar as mãos, em parte porque havia uma bola de basquete dentro da pia) de que aquilo na verdade era profundamente triste.
Por favor, não toquem em nada, por favor não toquem, ela disse a Josh e Abbie, mas só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva, e depois elas poderiam lavar as mãos no McDonald’s meio remodelado, desde que até lá fizessem o grande favor de mantê-las longe da boca, e que Deus as impedisse de esfregar os olhos.
(Fragmento do conto "Filhote", que integra "Dez de Dezembro", de George Saunders)

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