"Minha literatura é a transversalidade do contemporâneo. Meus romances e poemas formam uma rede horizontal em que tanto a literatura clássica quanto os quadrinhos, o cinema, a música pop, um teorema científico ou um spot publicitário entram no texto no mesmo nível, sem hierarquias externas. Mas esses ingredientes entram de maneira real, quer dizer, não como simples referências ou pinceladas, mas como nós ativos e constitutivos da obra."
Com essas palavras o escritor espanhol Agustín Fernández Mallo, autor de "Nocilla Dream", definiu sua literatura. Um argumento que uma constelação de artistas propagou aos quatro ventos em nome da arte contemporânea e grande parte deu com os burros na água. Poucos conseguiram unir plenamente conceito e resultado estético.
Nascido em La Coruña, Espanha, em 1967, Agustín Fernández Mallo foi apontado como um dos artistas capazes de fazer com eficiência essa acalentada união. Primeiro criou a ideia da poesia "pós-poética", depois estendeu essa ideia para a prosa. Nada mais do que uma literatura construída com os elementos do mundo contemporâneo: "Uma arte feita de mistura e de fragmentos, de cenas e outras artes – porque assim é a vida contemporânea. Não lidamos mais com a linearidade nem com a homogeneidade em nosso dia a dia."
Ganhou notoriedade em 2006, ao publicar "Nocilla Dream", primeiro romance da trilogia "Nocilla" do qual fazem parte "Nocilla Lab" (2008) e "Nocilla Experience" (2009). Em pouco tempo o termo Nocilla (uma marca de pasta de chocolate com avelã e também o nome de uma música do grupo punk Siniestro Total) passou a designar um grupo de autores espanhóis díspares, a chamada Geração Nocilla.
"Nocilla Dream" acaba de ser lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras e se revela muito mais uma literatura conceitual do que uma literatura experimental. A obra incorpora a estrutura do universo digital e a visão da ciência como modelos de rede.
A construção narrativa de "Nocilla Dream", como nos outros dois romances da trilogia Nocilla, é nomeada pelo autor como "docuficção". Uma mistura entre personagens e episódios retirados da "ficção coletiva" (também chamada de "realidade") e colhidos da "ficção pessoal" (também chamada de "imaginação"). Em outras palavras, as fronteira entre realidade e imaginação deixam de existir, como também são abolidas as fronteiras dos territórios físicos, mentais e digitais.
O romance, logicamente, não é constituído por uma narrativa linear e homogênea. É a Teoria do Caos colocada num liquidificador pós-moderno juntamente com todo tipo de citação que pode atuar como tempero. São fragmentos de histórias totalmente independentes que dialogam através de links ramificados. A prática do zapping é convertida em estrutura mental de leitura do mundo. O leitor que por acaso já passou pelas "antigas" ideias de hipertexto e dos fractais vai encontrar pouca novidade nas abordagens de "Nocilla Dream". Mesmo assim encontrará diante dos olhos conexões inusitadas e correlações instigantes, às margens da água.
Nos 113 fragmentos do romance (trabalhados para serem textos concluídos em si mesmos) é possível encontrar de tudo. Uma árvore no meio do deserto onde quem passa joga um calçado em seus galhos. Um sujeito que faz coleção de retrato de pessoas desconhecidas. Um grupo de chineses com mais de 80 anos de idade que se transformam em campeões imbatíveis de surf. Um jovem açougueiro de saco cheio em ser eficiente. Um designer de tampas de bueiro. Um fanático que converte Jorge Luis Borges em divindade. Uma prostituta de deserto. Um frentista que toca guitarra para o vento. Um imigrante ilegal mexicano fiel às fitas cassetes. Uma alpinista que cria o esporte de passar roupa em situações limites. Um artista plástico que usa chicletes mascados como matéria prima. Um compositor que faz sinfonias a partir de sons do encanamento de esgoto. A lista é longa e aleatória.
Tudo isso ao lado de conceitos filosóficos do "pós-pop" (o "afterpop") e citações científicas quânticas. A imaginação e o real ocupam o mesmo espaço, tudo no território do presente, no deserto do passado e na improbabilidade do futuro. Um dos exemplos está na origem dos chamados "micro países", territórios que não existem no campo restritivamente físico, mas que manifestam sua materialidade no campo simbólico e virtual. Completamente reais nos dias de hoje nos contatos em rede.
A presença de um sutil humor em "Nocilla Dream" deixa a globalização totalizante imersa em elementos irônicos. Nas palavras de Agustín Fernández Mallo, "poderíamos dizer que hoje em dia descremos de qualquer discurso que não contenha uma paródia ou uma caricatura de si mesmo, porque faz tempo que não cremos em conceitos absolutos." Quem sabe seja esse o retrato da conspiração das novas gerações.

Serviço:
"Nocilla Dream"
Autor – Agustín Fernández Mallo
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Joana Angélica d’Avila Melo
Páginas – 214
Quanto – R$ 36

Uma cidade na noite, vista do céu. Pense. Uma casa, uma luz que se apaga. Subitamente, um número indeterminado de luzes ao redor também se apaga, e em cascata o círculo escuro vai ampliando seu raio, até que toda a cidade deixa de ser vista. Pense. Um país à noite, visto do céu, uma cidade é um ponto de luz que de repente se apaga. Imediatamente depois, vão se apagando em círculo as cidades próximas, até que a escuridão do país alcança suas fronteiras. Pense. Um continente visto à noite, do céu. A luz que é um só país se apaga e assim todas as outras luzes, até o continente ficar negro. Pense. O globo terrestre visto à noite, do céu. Cada continente é um ponto de luz que agora se apaga. Por efeito dominó, apagam-se todos os continentes adjacentes, até que toda essa face da Terra mergulha nas trevas. Pense. Só isso, pense. Na outra face ainda é dia. Mas pense bem. (Fragmento de "Nocilla Dream" de Agustín Fernández Mallo)
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