LEITURA - Vozes na neblina
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
O jornalista Ademir Assunção já percorreu as redações de dezenas de jornais e revistas do país. Como jornalista cultural, entrevistou um grande número de artistas brasileiros contemporâneos, principalmente escritores, poemas, músicos e compositores.
Prestes a comemorar 30 anos de profissão, Assunção reuniu sua produção jornalística em dois livros. ''Faróis no Caos'', que reúne entrevistas, acaba de ser lançado pela editora Sesc-SP. ''Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos'', que reúne perfis, chega às livrarias no próximo ano.
As entrevistas presentes em ''Faróis no Caos'' foram publicadas originalmente em jornais (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Folha de Londrina, Jornal da Tarde, etc.) e em revistas (como Marie Claire, Veja São Paulo, IstoÉ, Coyote, etc.) ao longos das três últimas décadas.
Os entrevistados presentes no livro são: Alice Ruiz, Antonio Risério, Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Augusto de Campos, Caetano Veloso, Chacal, Claudio Daniel, Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso, Grande Otelo, Haroldo de Campos, Heriberto Yépez, Hermeto Pascoal, Itamar Assunção, Jorge Mautner, Kaká Werá Jecupé, Lenine, Luis Fernando Verissimo, Luiz Melodia, Marcatti, Márcia Denser, Mário Bortolotto, Monge Daiju, Nelson de Oliveira, Néstor Perlongher, Paulo Leminski, Roberto Piva e Sebastião Nunes.
Em ''Faróis no Caos'' é possível encontrar o músico Arrigo Barnabé dizer que compôs a música ''Clara Crocodilo'' quando ainda morava em Londrina. Também é possível achar o ator Grande Otelo reclamando amargurado por nunca ter sido visto como indivíduo, apenas como personagem. Ou ainda o poeta Roberto Piva afirmar que já voou pelos céus nas asas de gaviões.
No livro há duas entrevistas publicadas originalmente na Folha de Londrina, onde Ademir Assunção atuou como jornalista na década de 80. Uma realizada com Augusto de Campos e outra com Caetano Veloso, ambas publicadas em 1985.
A seguir, Ademir fala sobre ''Faróis no Caos''.
Qual o critério você utilizou para escolher as entrevistas de ''Faróis no Caos''?
A criação deste livro foi movida mais por necessidade do que por critério. Eu estava muito descontente com a superficialidade do jornalismo cultural de uns tempos pra cá. Pedi demissão de um emprego de sete anos, aluguei uma casa numa praia semi-deserta e passei dois meses trabalhando diariamente, sem televisão, sem telefone, sem internet, sem nada que desviasse minha atenção. Sabia que tinha nas mãos um material muito interessante, disperso em várias publicações, que seria importante reunir em livro e recolocar em circulação. Mas confesso que fiquei surpreso quando comecei a perceber o resultado final. Era muito mais denso do que eu imaginava.
Ficou muita coisa fora?
Não tenho ideia de quantas entrevistas fiz ao longo da minha vida jornalística. Uma pesquisa nos jornais e revistas nos quais trabalhei revelaria muitas outras. Mas com certeza as que estão no livro são as melhores. Fiz também muitas entrevistas com escritores, músicos e artistas em geral que resultaram em perfis. Muitos deles estão reunidos em outro volume, chamado provisoriamente de ''Deus Salve a Rainha e Evite Engarrafamentos'', que pretendo lançar no ano que vem, quando completo 30 anos de jornalismo.
Fica claro em ''Faróis no Caos'' que você não teve apenas o interesse de entrevistar artistas saturados pela mídia, mas também artistas pouco conhecidos. Porque essa escolha?
Porque a obviedade não me satisfaz. Há muitos artistas pouco conhecidos que possuem experiências e ideias profundas, densas, importantes. Uma das funções do jornalista é justamente tornar essas experiências conhecidas, difundi-las, socializá-las.
Você vê alguma reflexão comum presente na fala dos entrevistados?
Sim, em todos os entrevistados há uma reflexão comum sobre a arte e a vida, e vice-versa. Há também informações preciosas sobre o contexto em que determinadas experiências artísticas surgiram e se desenvolveram. Porém, há visões antagônicas sobre os processos artísticos e sobre o ser e o estar no mundo. As visões de Augusto de Campos e Roberto Piva, por exemplo, são frontalmente antagônicas. Um privilegia o racionalismo, a disciplina, o rigor. O outro o irracionalismo, o desregramento, a energia anárquica. Ambas são fascinantes. Nunca estive a procura de consensos. Penso que o atrito e o confronto de ideias geram movimento.
São quase 30 anos atuando como jornalista na área cultural, que painel você desenharia do processo da arte brasileira nesse tempo todo?
É muito difícil desenhar um painel de 30 anos de arte e cultura brasileiras. Não é esta a minha intenção com o livro. Mas penso que uma parte significativa das experiências mais radicais ocorridas principalmente na poesia e na música brasileira neste período está em discussão no livro, na voz de seus próprios articuladores. Há muita informação e reflexão que podem nutrir as gerações mais jovens e ajudá-las a compreender momentos importantíssimos que aconteceram na cultura brasileira recente. E por que alguns artistas foram jogados para escanteio, escamoteados, escondidos, embora suas obras permaneçam vivas e inquietantes.
E o quadro atual?
O quadro atual da criação artística continua pulsante. A diferença é que experiências realmente inovadoras e perturbadoras têm menos chances de repercutir em escala maior. O nível dos meios de difusão despencou assustadoramente. Isso passa a impressão de que não está acontecendo. Não é verdade. Impressionante é que isto está acontecendo em plena democracia, quando as ideias deveriam circular com mais liberdade.
Serviço:
''Faróis no Caos''
Autor - Ademir Assunção
Editora - Sesc-SP
Páginas - 408
Quanto - R$ 55,00
Fragmentos:
Fiz meu terceiro disco (Sampa Midnight) em 68 horas de estúdio, numa mesa de oito canais. Só quem conhece sabe que isso é loucura. Desafia alguém fazer isso hoje, no Brasil, com essa qualidade. Agora, não sou mais a fim de ficar fazendo disco assim. Sou um ser humano. É impossível ficar fazendo disco desse jeito. Então, de repente, existe uma gravadora que me dá acesso a 48 canais, quarenta a mais do que usei. Quero ter acesso a essas coisas.
(Itamar Assunção, entrevista de 1986)
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Ninguém sabe improvisar sem tocar bem o instrumento, sem ter segurança. É igual você dirigir um automóvel. Quando você vai aprender, fica olhando para o câmbio e o instrutor diz: não pode olhar, se não você não olha pra frente e pode bater. Chega um ponto em que você não olha mais para o câmbio, para seu pé, para trocar a marcha. O músico tem que dominar o instrumento a esse ponto. É daí que vem a liberdade para a improvisação. Para improvisar, a pessoa precisa ter consciência. A improvisação é a liberdade sobre o que você sabe fazer.
(Hermeto Pascoal, entrevista de 1987)
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Não acho que o que escrevo tenha algum valor literário. Não pretende ter. O que pretendo é ser lido, sem entendido, ser claro e, de alguma maneira, ser uma leitura atraente. Mas não tenho uma coisa muito profunda não, muito rebuscada. Não é falsa modéstia, não. É o que eu penso mesmo.
(Luis Fernando Verissimo, entrevista de 1999)
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Para o público, o ator é sempre ator, só. O ator não tem família. Ninguém reconhece isso. A maioria das pessoas costuma dizer que sou genial. Acho isso muito ruim. Não sou genial coisa nenhuma. Apenas vivo a vida e trato de tocar como posso. Sou um ator preocupado com a situação das artes e um chefe de família preocupado com os problemas familiares.
(Grande Otelo, em entrevista de 1997)


