A lucidez de um ladrão na hora do assalto não é a mesma lucidez de um homem no momento de escolher entre a esposa e a amante. Do mesmo modo como a lucidez de um político no momento em que executa o ato de corrupção não é a mesma lucidez de um pai no instante em que espanca o filho desobediente.
Entre os vários estados de lucidez, talvez a única universal seja a lucidez da verdade. É justamente essa que o escritor português José Saramago elege como ponto central de seu novo romance, ''Ensaio Sobre a Lucidez''. Lançado simultaneamente em Portugal e no Brasil, a obra remete a outro romance do autor, ''Ensaio Sobre a Cegueira'', de 1995.
O relato de ''Ensaio Sobre a Lucidez'' tem início durante as eleições na capital de um país fictício. O que seria mais um pleito democrático torna-se drama sem precedentes. Num primeiro momento, praticamente nenhum eleitor aparece nas zonas eleitorais. Preocupado com o fato, os governantes decidem prolongar os dias de votação e, assim, a população cumpre o dever cívico em peso. Os problemas começam após a apuração: quase 90 por cento dos votos são em branco.
Partidos e políticos entram em pânico. Os governantes, assustados, não conseguem entender o fato. Sob a falácia de que o regime democrático corre perigo, resolvem abandonar a cidade na calada da noite, isolando-a do resto do país com um cerco do exército. O que seria apenas uma inofensiva manifestação democrática da população, de descrédito ao sistema político, torna-se um suposto colapso social.
Os habitantes da cidade, isolados, sem governantes, juizes e policiais, levam suas vidas como se a rotina não tivesse sido alterada. A instauração do caos e o posterior arrependimento da população calculados pelos políticos simplesmente não acontecem. A comunidade continua a viver como se os governantes não fizessem falta, questionando um sistema político viciado.
Preocupado que esse processo se espalhe para outras cidades do país, os governantes traçam um plano para reverter os acontecimentos. O ponto principal está em eleger um culpado, um revolucionário que teria contaminado o povo com a ''brancura'' dos votos. O papel de bode expiatório recai sobre os ombros de uma mulher inocente, personagem de outro romance de Saramago.
Essa mulher seria aquela que, no enredo de ''Ensaio Sobre a Cegueira'', não perdeu a visão como todo o resto da população. Ou seja, foi a única que não perdeu a lucidez de enxergar verdade. Uma personagem que, na história de ''Ensaio Sobre a Lucidez'', continua lúcida frente à verdade, mas agora acompanhada de grande parte dos habitantes da cidade.
Com ''Ensaio Sobre a Lucidez'', José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, reforça seu trabalho de escrever sobre o tempo presente, o momento histórico em que vivemos. Uma característica cada vez mais constante em seus romances. Procura alertar que a própria democracia pode apresentar, em determinadas situações, características de regimes totalitários.
Pode parecer um paradoxo, mas no mundo atual isso é facilmente identificável. Os Estados Unidos são hoje, por exemplo, um país democrático com posturas e ações claramente totalitárias. Na democracia brasileira isso pode ser encontrado na obrigatoriedade do voto: o direito do cidadão de eleger seus governantes se apresenta como elemento da democracia e a imposição de ser obrigado a votar, como elemento do autoritarismo.
Serviço:
''Ensaio Sobre a Lucidez'', de José Saramago Editora Companhia das Letras, 328 páginas, R$ 39,50.

Fragmento:

''(...) depois, quando tivermos arrancado os farrapos da falsa normalidade com que temos andado a querer tapar a chaga, diremos que a cegueira desses dias regressou sob uma nova forma, chamaremos a atenção da gente para o paralelo entre a brancura da cegueira de há quatro anos e o voto em branco de agora, a comparação é grosseira e enganosa, sou o primeiro a reconhecê-lo, e não faltará quem liminarmente a rejeite como uma ofensa à inteligência, à lógica e ao senso comum, mas é possível que muitas pessoas, e espero que depressa se venham a converter em esmagadora maioria, se deixem impressionar, que se perguntem diante do espelho se não estarão outras cegas, se esta cegueira, ainda mais vergonhosa que a outra, não nos estará a desviar da direcção correcta, a empurrar para o desastre extremo que seria o desmoronamento talvez definitivo de um sistema político que, sem que nos tivéssemos apercebido da ameaça, transportava desde a origem, no seu núcleo vital, isto é, no exercício do voto, a semente da sua própria destruição ou, hipótese não menos inquietante, de uma passagem a algo completamente novo, desconhecido, tão diferente que, aí, criados como fomos à sombra de rotinas eleitorais que durante gerações e gerações lograram escamotear o que vemos agora ser um dos seus trunfos mais importantes, nós não teríamos com certeza lugar.''

(Fragmento de ''Ensaio Sobre a Lucidez'' de José Saramago)

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