LEITURA - Vidas sem descanso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Nos últimos quinze anos o escritor mineiro Luiz Ruffato empreendeu um projeto pouco comum na literatura brasileira. Sua intenção era escrever cinco romances abordando um único tema: o proletariado brasileiro da segunda metade do século 20. Ao projeto deu o título de ''Inferno Provisório''.
O primeiro volume, ''Mamma, Son Tanto Felice'', foi publicado em 2004, após cinco anos de gestação. Na sequência vieram ''O Mundo Inimigo'', ''Vista Parcial da Noite'' e ''O Livro das Impossibilidades''. Aquilo que parecia um delírio obsessivo tornou-se um trabalho referencial da literatura contemporânea.
O quinto e último volume da série, ''Domingos sem Deus'', acaba de chegar às livrarias lançado pela editora Record. Como nos volumes anteriores, embora seja classificado como romance, o livro traz seis histórias totalmente independentes. E relação entre elas acontece pela temática vinculada e por personagens que transpassam os cinco volumes.
Em ''Inferno Provisório'' é como se o narrador estivesse olhando um bairro, ou uma cidade, próximo das nuvens. Nessa posição privilegiada, focaliza uma casa, uma família, um sujeito, uma situação. Através dessas peças pinçadas, todas interligadas de alguma maneira, ele cria uma imagem subjetiva do todo.
Essa imagem seria o chamado ''retrato do proletariado brasileiro''. O termo ''proletariado'' na literatura de Luiz Ruffato não segue nenhuma linha marxista, apenas o mundo como ele é. Na verdade trata-se apenas do trabalhador comum, aquele que não é detentor de nenhum meio de produção. O clássico funcionário, o humilde. Da mocinha que atende o balcão da padaria ao motorista do caminhão de entrega de cerveja. Do frentista de posto de gasolina à auxiliar de serviços gerais do shopping.
Luiz Ruffato sempre defendeu a tese de que esses personagens não foram devidamente representados na literatura brasileira. Que todos os demais estratos sociais gozaram de permanência estável nas letras brasileiras em diferentes épocas, menos o proletariado, a massa da população nacional, em sua condição natural de vida cotidiana.
É impossível não admitir que Ruffato foi fundo em seu objetivo. Nos cinco volumes de ''Inferno Provisório'' há o desenho da transição do trabalhador rural em trabalhador urbano no país. Seu ajustamento diante das mudanças que, no fundo, sempre se resumiram a uma única palavra: sobrevivência. Da década de 50 ao final do século 20.
As histórias de ''Domingos sem Deus'' retratam essa última etapa mais recente, quando os personagens abandonam as pequenas cidades do interior de Minas Gerais e se instalam em grandes centros urbanos como São Paulo. Na narrativa operam dois elementos determinantes: memória e flashback. As histórias, a partir de um acontecimento presente, abrem uma série de trilhas para o passado se apresentar. Não só para ser relembrado, mas para oferecer subsídios para o remorso e o rancor do presente.
O diferencial dos textos de ''Domingos sem Deus'' para com outros volumes de ''Inferno Provisório'' está na narrativa que fecha o romance. Nela reaparece o personagem Luís Augusto próximo da meia idade realizando uma retrospectiva de sua vida. Uma espécie de acerto de contas com o passado proletário de sua família. Retrata o momento em que o proletariado se converte em classe média e rapidamente entende que tudo não vai além de ilusão.
Há muito do próprio Luiz Ruffato nesse acerto de contas. O escritor nasceu em Cataguases, interior de Minas Gerais, em 1961. Filho de um pipoqueiro, passou pelos mais diferentes trabalhos proletários até fixar residência em São Paulo, onde se tornou jornalista e autor de 12 romances que receberam vários prêmios, entre eles o Jabuti. No projeto de ''Inferno Provisório'', dois volumes merecem destaque: ''Vista Parcial da Noite'' e ''Domingos sem Deus''. Eles resumem com exatidão a literatura proposta por Ruffato, uma coleção de vidas sem descanso. Nem domingo.
Serviço:
- Domingos Sem Deus
Autor - Luiz Ruffato
Editora - Record
Páginas - 112
Quanto - R$ 32,90
Fragmento:
Seu Valdomiro desembrulha recordações perambulando pelas estreitas ruas de Diadema, onde pousou, mala de papelão e breve esperança de ajuntar dinheiro e candear os sonhos dos irmãos a uma vida melhor, casa de tijolo-e-laje e comida farta, roupa domingueira e cabeça levantada. As mãos escalavradas possuíam pouco mais de dezoito anos, baixa no Serviço Militar, ''reservista de terceira categoria'', braços torneados a mirréis por sair lavourando fumo e milho de sitiantes italianos. O pai, à altura, labutava no governo de uma serrariazinha, um-dois troncos por dia, e a Juventina, casada, esperava o segundo neném lá dela. A Margarete, namoro firme, estumava o rapaz a levar ela embora, olho-comprido no Rio de Janeiro, Quem seguiu, arrependeu não, afirmava, como se conhecesse. O Irineu pescava. Percorria léguas, vara pendoada no ombro, faiscando um corgo, um brejo, uma loca. Pegou intimidade com cascudos, lambaris, bagres, carás, piabas, traíras. O Tigre, velho e manhoso resfolegava coleado, grotas e pirambeiras, na guarda do dono. Esse menino, meu deus, resmungava o pai, atormentado. É sim, mais já foi mais, seu Valdomiro empurrou a pedra três-quarto do dominó para rabeira.
(Fragmento de ''Domingos Sem Deus'' de Luiz Ruffato)


