Na década de 1920, a cidade de Buenos Aires era habitada por dois grupos literários com propostas estéticas distintas. De um lado estava o Boedo, grupo que trabalhava com temas realistas vinculados ao proletariado e à periferia urbana. De outro lado estava o Florida, grupo que priorizava o cosmopolismo e as novas formas de linguagem da vanguarda europeia.
Entre os integrantes do Florida, que divulgavam sua produção da revista "Martin Fierro", estava a figura de Jorge Luis Borges (1899 - 1986). Do outro lado, entre os integrantes do Boedo, que veiculavam sua produção da revista "Los Pensadores", estava a figura de Roberto Arlt (1900 – 1942).
Mesmo estando em mundos complemente diferentes, Borges e Arlt trocavam, além e farpas, algumas figurinhas. Quando Arlt publicou seu primeiro livro, "O Brinquedo Raivoso", Borges rapidamente tungou o argumento do romance, sobre a traição, para criar o conto "O Indigno".
"O Brinquedo Raivoso" foi um dos primeiros romances da literatura argentina que trabalhava com a temática urbana, mandando para o espaço os pampas, os cavalos e as cuias. O ambiente rural foi substituído totalmente pelo urbano. Lançado em 1926, o livro deveria se chamar "A Vida Porca", mas os editores acharam por bem pegar leve e trocaram o título para "O Brinquedo Raivoso".
Primeiro romance escrito por Arlt, "O Brinquedo Raivoso" acaba de ser lançado pela editora Iluminuras revelando o pontapé inicial da peculiar literatura criada pelo escritor argentino. Roberto Arlt escreveu o livro enquanto trabalha como jornalista policial. Recusado por várias editoras, o texto traz considerável influência do universo do crime, mas bem distante do gênero policial.
O narrador é um jovem chamado Silvio que, na batalha pela sobrevivência, fica seduzido pelo mundo do crime. Ao lado de alguns amigos da periferia, forma um grupo de delinquentes juvenis fissurados por roubos. Dotados de pouca ambição, se dedicam a pequenos furtos. Da mão para a boca. Entre as empreitadas, está o furto de livros da biblioteca escolar para vender em sebos de Bueno Aires.
Dividido entre o crime e a justiça, Silvio é obrigado pela mãe a arrumar trabalho. Batendo de porta em porta, passa por todo tipo de ofícios que sempre terminam em injúrias pelo excesso de trabalho e escassez de remuneração. Sua boa vontade e determinação sempre terminam em frustração. Uma após a outra. Mais outra e outra. A honestidade passa a ser algo inútil.
A grande sacada de Arlt é o que transformar as memórias de um delinquente numa discussão sobre a traição. Algo comparável aos desdobramentos narrativos de Edgar Alan Poe com a relativização o sentido da traição gratuita e da traição filosoficamente embasada.
Roberto Arlt escreveu "O Brinquedo Raivoso" quando tinha 23 anos de idade. Segundo a lenda, carregava sempre os originais debaixo do braço em suas andanças por Buenos Aires. Toda a pessoa que encontrava pela frente fazia questão de ler o livro para saber a opinião. Ouvia a opinião das mais variadas pessoas. A partir desses comentários, reescrevia o texto, cortava ou acrescenta sugestões. Um método que envolveu tanto a insegurança do autor quanto a participação do leitor na construção da narrativa. Algo normal hoje graças às ferramentas da internet, mas na década de 1920 a história era outra.
O escritor permaneceu no ostracismo da história da literatura argentina durante um bom tempo. Um dos responsáveis pelo resgate da literatura de Arlt foi escritor Ricardo Piglia, que criou uma nova abordagem para leitura de sua obra. Além de "O Brinquedo Raivoso", a editora Iluminuras já publicou outros quatro livros de Arlt: "Águas-Fortes Portenhas", "As Feras", "Os Sete Loucos & Os Lança-Chamas" e "Viagem Terrível".

Serviço
"O Brinquedo Raivoso"
Autor – Roberto Arlt
Editora – Iluminuras
Tradução – Maia Paula Gurgel Ribeiro
Páginas – 160
Quanto – R$ 38



Assim vivíamos dias de emoção sem-par, gozando o dinheiro dos latrocínios, aquele dinheiro que para nós tinha um valor especial e até parecia falar com a gente com linguagem expressiva. As notas pareciam mais significativas com suas imagens coloridas, as moedas de níquel tilintavam alegremente nas mãos que faziam malabarismo com elas. É, o dinheiro adquirido na base de trapaças aparentava para nós ser muito mais valioso e sutil, impressionava numa representação de valor máximo, parecia que sussurrava nos ouvidos um elogio sorridente e uma picardia incitante. Não era o dinheiro vil e odioso que se abomina porque é preciso ganhá-lo com trabalhos penosos, e sim dinheiro agilíssimo, uma esfera de prata com duas pernas de gnomo e barba de anão, um dinheiro trapaceiro e dançarino cujo aroma, como o vinho generoso, arrastava para farras divinas. As nossas pupilas estavam limpas de inquietude, ousaria dizer que um halo de soberba e audácia aureolava nossa testa. Soberbia de saber que, se conhecidas nossas ações, seríamos conduzidos diante de um juiz de instrução. (Fragmento de "O Brinquedo Raivoso" de Roberto Arlt)
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