Lamaçal existe em qualquer buraco. Em qualquer cidade, país ou planeta. Em casas, empresas ou governos. Geralmente a lama permanece oculta, longe dos olhos ou escondida sob o tapete.
É no lamaçal que as coisas apodrecem. É no lamaçal que as pessoas se degeneram. Revelar com sarcasmo o lamaçal presente na sociedade chinesa atual é o objetivo do escritor chinês Murong Xuecun no romance "Deixe-me em Paz".
Lançado semana passada pela Geração Editorial, "Deixe-me em Paz" é a primeira obra de Murong Xuecun (pseudônimo de Qun Hao) publicado no Brasil. E também seu livro mais cultuado. Quando foi publicado originalmente na China, a edição sofreu uma série de cortes por parte dos editores como censura. A única maneira encontrada pelo autor em ter seu romance lido integralmente foi disponibilizá-lo na internet onde a censura seria menos efetiva.
Graças a essa estratégia, o livro foi lido por quase quatro milhões de chineses. Autor de quatro romances disponibilizados na internet, em pouco tempo Murong Xuecun se transformou num dos escritores mais lidos na China. Chegou a ter 3,97 milhões de seguidores do Weibo, o Twitter chinês, até o governo censurar e encerrar sua conta. Desde então vive numa batalha com as autoridades comunistas para poder se expressar livremente. Já teve sete contas diferentes, todas encerradas pelo governo. Nas palavras do escritor, não existe nenhuma lei que proíba a liberdade de expressão em seu país, mas existe um forte aparato de censura que funciona dia e noite.
"Deixe-me em Paz" narra a história de Chen Zhong, um jovem e ambicioso gerente de vendas da indústria automobilística. Após uma rápida ascensão social e econômica, passa por uma profunda crise. Acaba de perder uma promoção na empresa onde trabalha e assiste uma terrível conspiração se formar para provocar sua demissão. Sua esposa está prestes a pedir o divórcio cansada de suas infindáveis traições. Uma imensa dívida está próxima de explodir levando-o para a cadeia.
No meio desses problemas, o personagem vaga pela cidade de Chengdu (quinta metrópole mais populosa da China) na companhia de amantes, clientes, salafrários, prostitutas e dois fiéis amigos - um policial corrupto e um especulador financeiro. Dono de um ego do tamanho do Everest, Chen Zhong vive para satisfazer seus desejos sexuais e ganhar dinheiro da maneira mais animal e corrupta possível. Nessa fúria cega, a cada dia se afunda mais e mais no lamaçal, a cada dia se degenera mais e mais. Se torna cada vez mais escroto, cada vez mais canalha.
Murong Xuecun trabalha com dois planos de fundo em "Deixe-me em Paz". No primeiro retrata o processo e urbanização da China com quantidades cada vez maiores de pessoas deixando os campos e as pequenas cidades do interior para viver nas metrópoles. No segundo retrata o avanço do capitalismo na sociedade chinesa (mesmo dentro do regime comunista) onde as pessoas, cada vez mais, se digladiam por bens materiais e se corrompem por dinheiro. Esses dois processos se misturam na figura do personagem Chen Zhong.
Esse recorte da vida real dos chineses é o tema central do romance. O cotidiano contemporâneo chinês assume ares do absurdo revelando o processo de degeneração do caráter de um cidadão comum chinês. Também expõe uma sociedade onde o poder masculino transforma as mulheres, sem distinção, em mero objeto. Mas Murong não faz da narrativa uma tragédia, faz uma comédia negra. Com uma escrita carregada de sarcasmo e humor negro, "Deixe-me em Paz" é uma saga sobre a decadência humana na clássica figura do pícaro.
Murong Xuecun, nascido em 1974, foi um dos convidados da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura ocorrida em Brasília na semana passada. Em sua fala, ao lado do escritor coreano Kim Young-há, fez questão de enfatizar a falta de liberdade de expressão na China.

SERVIÇO
"Deixe-me em Paz"
Autor – Murong Xuecun
Editora – Geração Editorial
Tradução – Karla Lima
Páginas – 320
Quanto – R$ 44,90 e R$ 24,90 (e-book)

Minha mãe me arranjou nada menos que quatro encontros, cada um com suas peculiaridades. O primeiro foi com uma mulher estilo halterofilista. Tomei um pouco de chá com ela e fugi voando, inventando um problema de trabalho. Minha mãe perguntou como havia corrido. – Não há a menor possibilidade de que eu alguma vez venha a ganhar uma luta com ela – expliquei. – Imagine seu filho com o rosto sangrando todo dia. A candidata do segundo encontro era bem mais atraente, porém maquiada em excesso. O cabelo parecia um capacete. Logo de cara me perguntou se eu tinha uma casa, um carro. Respondi que possuía uma bicicleta comprada com dinheiro emprestado. Seu rosto congelou. Toda vez que eu ia para uma dessas entrevistas, minha mãe me incentivava a dizer que havia sido "brevemente casado". A expressão implicava que o meu casamento anterior não tinha deixado marcar profundas em mim. Eu me perguntava com tristeza qual acabaria sendo o significado daqueles três anos de casado: uma piada, um jogo ou uma ferida que jamais cicatrizaria? Depois de passar por tudo aquilo, será que eu ousaria tentar de novo? Li Liang disse que o casamento e a prostituição eram a mesma coisa, a única diferença sendo que o primeiro era no atacado e o segundo, no varejo. Isso me deixou mais acabrunhado e melancólico. (Fragmento de "Deixe-me em Paz" de Murong Xuecun)
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