LEITURA - Viagem pelo lamaçal
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a FOLHA2 
Lamaçal existe em qualquer buraco. Em qualquer cidade, país ou planeta. Em casas, empresas ou governos. Geralmente a lama permanece oculta, longe dos olhos ou escondida sob o tapete.
É no lamaçal que as coisas apodrecem. É no lamaçal que as pessoas se degeneram. Revelar com sarcasmo o lamaçal presente na sociedade chinesa atual é o objetivo do escritor chinês Murong Xuecun no romance "Deixe-me em Paz".
Lançado semana passada pela Geração Editorial, "Deixe-me em Paz" é a primeira obra de Murong Xuecun (pseudônimo de Qun Hao) publicado no Brasil. E também seu livro mais cultuado. Quando foi publicado originalmente na China, a edição sofreu uma série de cortes por parte dos editores como censura. A única maneira encontrada pelo autor em ter seu romance lido integralmente foi disponibilizá-lo na internet onde a censura seria menos efetiva.
Graças a essa estratégia, o livro foi lido por quase quatro milhões de chineses. Autor de quatro romances disponibilizados na internet, em pouco tempo Murong Xuecun se transformou num dos escritores mais lidos na China. Chegou a ter 3,97 milhões de seguidores do Weibo, o Twitter chinês, até o governo censurar e encerrar sua conta. Desde então vive numa batalha com as autoridades comunistas para poder se expressar livremente. Já teve sete contas diferentes, todas encerradas pelo governo. Nas palavras do escritor, não existe nenhuma lei que proíba a liberdade de expressão em seu país, mas existe um forte aparato de censura que funciona dia e noite.
"Deixe-me em Paz" narra a história de Chen Zhong, um jovem e ambicioso gerente de vendas da indústria automobilística. Após uma rápida ascensão social e econômica, passa por uma profunda crise. Acaba de perder uma promoção na empresa onde trabalha e assiste uma terrível conspiração se formar para provocar sua demissão. Sua esposa está prestes a pedir o divórcio cansada de suas infindáveis traições. Uma imensa dívida está próxima de explodir levando-o para a cadeia.
No meio desses problemas, o personagem vaga pela cidade de Chengdu (quinta metrópole mais populosa da China) na companhia de amantes, clientes, salafrários, prostitutas e dois fiéis amigos - um policial corrupto e um especulador financeiro. Dono de um ego do tamanho do Everest, Chen Zhong vive para satisfazer seus desejos sexuais e ganhar dinheiro da maneira mais animal e corrupta possível. Nessa fúria cega, a cada dia se afunda mais e mais no lamaçal, a cada dia se degenera mais e mais. Se torna cada vez mais escroto, cada vez mais canalha.
Murong Xuecun trabalha com dois planos de fundo em "Deixe-me em Paz". No primeiro retrata o processo e urbanização da China com quantidades cada vez maiores de pessoas deixando os campos e as pequenas cidades do interior para viver nas metrópoles. No segundo retrata o avanço do capitalismo na sociedade chinesa (mesmo dentro do regime comunista) onde as pessoas, cada vez mais, se digladiam por bens materiais e se corrompem por dinheiro. Esses dois processos se misturam na figura do personagem Chen Zhong.
Esse recorte da vida real dos chineses é o tema central do romance. O cotidiano contemporâneo chinês assume ares do absurdo revelando o processo de degeneração do caráter de um cidadão comum chinês. Também expõe uma sociedade onde o poder masculino transforma as mulheres, sem distinção, em mero objeto. Mas Murong não faz da narrativa uma tragédia, faz uma comédia negra. Com uma escrita carregada de sarcasmo e humor negro, "Deixe-me em Paz" é uma saga sobre a decadência humana na clássica figura do pícaro.
Murong Xuecun, nascido em 1974, foi um dos convidados da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura ocorrida em Brasília na semana passada. Em sua fala, ao lado do escritor coreano Kim Young-há, fez questão de enfatizar a falta de liberdade de expressão na China.
SERVIÇO
"Deixe-me em Paz"
Autor Murong Xuecun
Editora Geração Editorial
Tradução Karla Lima
Páginas 320
Quanto R$ 44,90 e R$ 24,90 (e-book)


