Ela é considerada uma das mais radicais poetas do século 20. Criou uma nova maneira de construção de frases onde a repetição ganhava sentido em vez de diluição. Antenada com as mais variadas vanguardas, Gertrude Stein (1874 - 1946) tornou-se referência na experimentação da linguagem.
Curiosamente, a escritora norte-americana não ganhou popularidade como poeta, mas como prosadora. Isso graças a''A Autobiografia de Alice B. Toklas'', obra publicada originalmente em 1933. Em suas páginas, narrava detalhes de sua vida através da voz de sua namorada, Alice.
''A Autobiografia de Alice B. Toklas'' acaba de ganhar uma nova tradução pelas mãos da Cosac Naify. Trata-se de uma obra escrita de maneira extremamente simples e, ao mesmo tempo, com um conceito ousado. Gertrude Stein criou uma autobiografia de outra pessoa para falar de si mesma.
Gertrude e Alice viveram juntas ao longo de várias décadas. Alice era a ''dona de casa'', cuidava dos afazeres domésticos e, nas horas vagas, datilografava os manuscritos escritos pela companheira. Gertrude era a ''intelectual'', estava conectada com as novidades das artes plásticas e da literatura, dialogava com os principais artistas da época. O típico e discreto casal homossexual, algo pouco comum na época.
Nas últimas linhas de ''A Autobiografia de Alice B. Toklas'', a narradora, Alice (que na verdade é Gertrude), resume a intenção do livro com as seguintes palavras: ''Cerca de seis meses atrás Gertrude disse: Me parece que você não va nunca escrever essa autobiografia. Sabe o que eu vou fazer? Vou escrever para você. Vou escrever com a mesma simplicidade com que fez a autobiografia de Robinson Crusoé.''
Trafegando entre a biografia e a ficção, a obra se ajusta num gênero extremamente contemporâneo chamado atualmente de ''autoficção''. A narrativa está totalmente direcionada a relatar acontecimentos externos e cotidianos. Basicamente é o relato do encontro entre pessoas. Compreende o período em que Gertrude e Alice viveram juntas em Paris, de 1903 a 1932.
Através da voz de Alice, Gertrude revela seus encontros com infindáveis figuras como Pablo Picasso, Henri Matisse, George Braque, Ernest Hemingway, Guillaume Apolinaire e Paul Cézanne. A lista é quilométrica. A cada parágrafo surge uma pessoa diferente para conversar, comer, beber, viajar ou discutir uma nova idéia.
O que fica evidente em ''A Autobiografia de Alice B. Toklas'' é a postura de Gertrude Stein em realizar um retrato de sua vida pessoal através do olhar de uma pessoa extremamente próxima. O relato que uma simples ''dona de casa'' sobre o cotidiano de uma ''intelectual'' detentora de uma vida agitada e repleta de referências estéticas.
Gertrude Stein escreve sua própria autobiografia utilizando a visão de sua companheira. Uma pessoa que não está muito interessada em questões estéticas, nem em obras de arte. Alguém que está interessada nos atos imediatos que fazem do cotidiano uma sequência de fatos, não uma sucessão de mirabolantes revelações artísticas. Alguém que percebeu que só as donas de casas são felizes.


Serviço
- A Autobiografia de Alice B. Toklas
Autor - Gertrude Stein
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Rubens Siqueira
Posfácio - Silviano Santiago
Quanto - R$ 59 (288 pág. capa dura)
Hemingway e Gertrude costumavam andar juntos e conversar muito. Um dia ela disse a ele, escute aqui, você diz que você e sua mulher têm algum dinheiro juntos. É o suficiente para vocês viverem, se viverem sossegados. É, sim, disse ele. Bom, disse ela, faça isso. Se continuar trabalhando para jornal você nunca vai ver as coisas, vai ver só palavras, e isso não é bom, isto, é claro, se você tenciona ser escritor. Ele e a mulher foram viajar e logo depois Hemingway apareceu sozinho. Ele veio a casa cerca das dez horas da manhã e ficou, ficou para almoçar, ficou a tarde inteira, ficou para jantar e ficou até dez da noite e então anunciou que sua esposa estava grávida, e então com grande amargura, e eu, e eu sou jovem demais para ser pai. Nós o consolamos o melhor possível e o mandamos embora.
(Fragmento de ''A Autobiografia de Alice B. Toklas'' de Gertrude Stein)

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