Eric Nepomuceno é mais conhecido como tradutor de literatura latino-americana. Converteu para língua portuguesa mais de 50 livros de autores de idioma espanhol, obras de escritores como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Juan Rufo, Antonio Skármeta e Julio Gelman, entre outros. Foi agraciado com dois prêmios Jabuti de melhor tradução.
Além de tradutor e jornalista, também abraçou a carreira de contista. Autor de seis volumes de contos, possui livros publicados no Brasil e países da América Latina ao longo das 40 últimas décadas. Os leitores que não conhecem essa faceta literária de Eric Nepomuceno têm agora uma boa oportunidade através de ''Antologia Pessoal'', obra lançada pela editora Record.
Organizada pelo próprio autor, ''Antologia Pessoal'' é uma seleção de 42 contos escritos entre 1973 e 2008 e publicados originalmente em seus livros anteriores. Para selecionar os textos, Nepomuceno adotou um critério extremamente pessoal: ''Trata-se de uma seleção feita sem nenhum outro critério que esse: creio que, dos meus contos e relatos, são os que sobreviveram ao tempo. Claro que se tivesse feito essa mesma seleção há alguns anos, vários dos contos que ficaram de fora estariam incluídos. E se eu tornar a fazer essa escolha daqui a alguns anos, alguns dos escolhidos ficarão de fora''.
A sequência dos textos não está estruturada na ordem cronológica de quando foram escritos ou publicados. Nepomuceno optou por dividir os contos em seis blocos temáticos ou associativos. O bloco que merece maior destaque é aquele que focaliza a atmosfera da infância, histórias onde garotos experimentam a descoberta da rugosidade da realidade, a percepção de que a magia da fantasia se distancia paulatinamente.
A temática das relações humanas não resolvidas que envolvem algum sentimento amoroso - mulheres, pais, filhos ou amigos -, permeia vários blocos com diferenças sutis. Esse parece ser o tema recorrente ao longo de ''Antologia Pessoal''. Colocados lado a lado, esses contos se revelam variações sobre um mesmo tema, uma repetição quase minimalista. Nesses textos, o autor subtrai a ideia de surpresa do conto tradicional para instaurar o processo mental dos personagens.
A impressão que causa aos olhos do leitor é simples: um mesmo personagem apresentado com apenas variações exteriores. Interiormente, não há variações substanciais. Associado a isso, a narrativa de Nepomuceno está empenhada muito mais no sentido de ocultar do que revelar. São contos constituídos apenas de um breve fragmento de enredo. Em alguns casos, até mesmo o enredo é deixado de lado para reproduzir uma melancolia cíclica e expansiva.
Uma das características da literatura de Eric Nepomuceno está em apresentar o universo interior dos personagens através de descrições exteriores. Através de ambientes e situações, o universo dos personagens ganha contorno, forma e visibilidade. São sempre histórias sem nenhuma possibilidade de resolução. Todo início, bem como todo final, está suspenso no ar, pairando sem pontos de sustentação.
''Antologia Pessoal'' é a visão particular de uma obra a partir da ótica do criador. Uma antologia pautada numa seleção muito mais afetiva do que lúcida. O autor poderia ter deixado de lado um punhado de textos, mas optou por oferecer ao leitor um leque maior de possibilidades narrativas. Opção que acentuou, visivelmente, o caráter de variações sobre a melancolia do mesmo tema.

SERVIÇO
- Antologia Pessoal (1973 - 2008)
Autor - Eric Nepomuceno
Editora - Record
Prefácio - Alfredo Bosi
Quanto - R$ 59 (352 pág.)

Fragmento:
Ela sorriu com os olhos, respirou fundo, demorou uma vida e finalmente disse:
- Quero.
E eu quieto, olhando seus olhos. E ela murmurou:
- Claro.
E eu quieto, olhando seus olhos.
E ela continuou. Sorriu de novo, o sorriso mais belo do mundo, e sem dizer nada repetiu com os olhos ''quero'', virou as costas e saiu caminhando na direção do grupo de garotas que esperavam na porta do cinema. E eu senti que estava afundando aos poucos no chão daquela esquina, e que o céu daquela esquina me envolvia feito um lençol negro.
Eu tinha uma namorada. E o mundo era meu.
(Fragmento do conto ''Quando o Mundo Era Meu'' que integra ''Antologia Pessoal'' de Eric Nepomuceno)

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