LEITURA - Universo feminino
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 2008
Bruna Fioreti<br> Agência Estado 
A proposta, o nome do livro, as autoras, tudo parece um tanto pretensioso quando se fala de ''O Livro das Garotas Audaciosas'' (Galera Record), que acaba de ser lançado no Brasil. A publicação, uma ''versão luluzinha'' de ''O Livro Perigoso para Garotos'', se tornou best-seller nos Estados Unidos e foi editado em 15 países sempre com um certo ''barulho'', graças à atração exercida pelo que, a princípio, pode parecer uma publicação de auto-ajuda para adolescentes. O livro, no entanto, é mais uma enciclopédia cheia de conhecimentos úteis e inúteis sob medida para meninas.
Basta bater o olho no índice para entender o espírito da obra, na qual convivem verbetes como ''Joana D'arc'' e ''Como Trocar um Pneu''. Para as autoras, as americanas Andrea J. Buchanan e Miriam Peskowitz, cada um desses temas tem uma razão para estar ali, pois juntos formam a base de dados necessária para uma ''garota audaciosa''. Por dados leia-se detalhes de brincadeiras, dicas de beleza, regras dos esportes... ''É um livro para qualquer garota que tenha o espírito de aventura'', resume Andrea.
A autora garante que as informações contidas nessas páginas são capazes de aplacar a curiosidade de meninas e mulheres com os mais diversos conceitos de aventura. Mas verdade seja dita: as leitoras potenciais ainda não chegaram à idade adulta. É a garotinhas e adolescentes que interessa mais mostrar conhecimentos que vão do uso do estilingue ao jogo de boliche.
Já capítulos como o que ensina a falar em público ou a negociar o salário - que Miriam garante ter feito o maior sucesso lá fora - são as apostas para agradar jovens senhoras. ''Minha avó de 90 anos adora o livro porque relembra suas brincadeiras de criança.''
Por meio de exemplos como este, Andrea defende que leitoras de todas as idades aprendem, sim, com essa enciclopédia feminina. ''Meninas adoram o senso de mistério e aventura do livro e a idéia de haver uma coisa feita exclusivamente para elas. Já as mulheres adoram recordar como eram suas vidas quando novas.'' Pretensão da autora? Ela jura que não. A idéia, Andrea diz, é englobar conhecimentos compartilhados entre mulheres há tempos.
Ainda em autodefesa, Miriam assume que, apesar de a obra ter sido classificada de ''cultura inútil'' pelo ''The New York Times'', famílias mundo afora as agradecem por recordar suas mais caras brincadeiras de infância.
Versão abrasileirada
Por aqui, a maior preocupação foi adaptar a obra de forma a torná-la bem-aceita pelas leitoras brasileiras. Entrou em cena uma equipe da Galera Record com a missão de incluir referências tupiniquins ao livro. Graças a isso, a edição brasileira ganhou um capítulo sobre o surfe e referências a nomes como Anita Garibaldi, Leila Diniz e Chiquinha Gonzaga. ''Escolhemos mulheres audaciosas, à frente de seus tempos, algumas até injustiçadas e com histórias de vida que muitos desconhecem, como a Princesa Leopoldina, que abraçou a causa da Independência muito antes do marido, Dom Pedro'', explica Ana Lima, uma das editoras do selo.
As escritoras americanas aprovaram as alterações locais. Miriam diz que gostou do novo capítulo sobre o vôlei e Andrea adorou a palavra ''audaciosa'' do título (lá fora o livro se chama ''The Daring Book for Girls''). Mas elas enfatizam que, no Brasil ou nos Estados Unidos, a real razão de escrever esse livro está na tentativa de ''deixar as meninas serem meninas por mais tempo'', nas palavras de Andrea. O objetivo é nobre: ela acredita que as garotas de hoje têm dificuldades de se reconhecer na literatura e no mundo, porque são estimuladas a ficar adultas cedo demais. ''Sentimos que os 9 anos são os novos 17, e as garotas crescem rápido demais'', diz Miriam. O antídoto, segundo elas, é ser ''audaciosa''.


