Quando os leitores de Fernando Pessoa (1888 - 1935) começam a acreditar que todos seus inéditos do poeta português ganharam luz, invariavelmente surge uma nova obra. A lendária ''arca'' que guarda os escritos originais de Pessoa parece não ter fundo.
A mais recente novidade é ''Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal'', obra publicada em 2003 em Portugal e agora lançado no Brasil pela Editora Girafa. Organizado pelo pesquisador Richard Zenith, o volume reúne fragmentos de diários, cartas, reflexões, anotações e apontamentos escritos por Fernando Pessoa ao longo de sua existência. A maioria dos textos é inédita, parte deles escritos originalmente em língua inglesa.
Trata-se de um volume claramente destinado aos admiradores e pesquisadores da obra do poeta lusitano. É, visivelmente, muito mais uma obra que possui o intento de oferecer novos elementos à biografia de Fernando Pessoa do que apresentar uma abordagem de seu universo literário.
A partir de uma leitura dos textos de teor autobiográfico, Richard Zenith defende a tese que a imagem de Pessoa que ser propagou mundo afora não corresponde à realidade. Segundo sua tese, a imagem do poeta que renegava a família, detentor de problemas psicanalíticos em relação à mãe, que viveu parte da vida na miséria e no alcoolismo, de comportamento assexuado, foi criada por seu primeiro biógrafo, o crítico literário João Gaspar Simões.
Na visão de Zenith, Gaspar Simões criou um caráter ''trágico, instigante e moralmente instrutivo'' para a vida de Fernando Pessoa. A verdade é que a biografia foi responsável pela promoção da obra do poeta que, mesmo após anos de sua morte, era praticamente desconhecida. Assim, a visão de Simões tornou-se uma espécie de ''visão definitiva''. Nesse sentido, os textos de ''Escritos Autobiobráficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal'' poderiam ser utilizados para oferecer uma visão da vida do poeta mais próxima do real.
Os textos mais curiosos do livro são os intitulados ''escritos automáticos'' de 1916 e 1917. Vale assinalar que os escritos automáticos de Pessoa não possuem nenhuma relação com a prática utilizada pelo poeta André Breton (1896 - 1966) e os surrealistas franceses, muito menos com àquela praticada pelo escritor Jack Kerouac (1922 - 1969). Na realidade trata-se de ''escritos mediúnicos'' sem nenhum interesse de utilização literária.
São anotações de mensagens psicografadas por Fernando Pessoa durante o período que realizou experiências como médium. Seu interesse era obter resposta dos espíritos sobre assuntos que o incomodavam. Em grande parte das anotações o poeta, então com 28 anos de idade, pede a ajuda dos espíritos para se livrar de sua virgindade amorosa e sexual.
Realizando perguntas aos espíritos, desejava saber quando encontraria a mulher de sua vida. Mais que isso, a mulher que o conduziria pelos vales do sexo. Nas respostas, os espíritos alertam Pessoa de que inicialmente ele precisava experimentar o sexo com determinada mulher para depois conhecer o amor através de outra.
Os textos mais densos da obra figuram num bloco intitulado ''reflexões pessoais''. São investigações sobre a vida realizadas a partir do campo das idéias nomeadas de ''regras da vida''. Alguns desses elementos são encontrados, de maneira diluída no ''Livro do Desassossego'', o que parece indicar que algumas dessas anotações podem ter sido utilizadas em poemas escritos posteriormente.
''Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal'' apontam para a abordagem de que os heterônimos de Fernando Pessoa formam as facetas de um único homem, o poeta de carne e osso. Ao mesmo tempo, levanta a possibilidade que a carne e osso ''eram muitos''. Ou seja, cai no velho beco sem saída traçado pelo próprio poeta acerca de si mesmo.

Serviço:
- Livro ''Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal" de Fernando Pessoa, Girafa Editora, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, tradução de Manuela Rocha, 536 páginas, R$ 51,00.

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