Existem romances que ocultam preciosidades. Solicitam ao leitor que vasculhe os sentimentos dos personagens, explore a paisagem da narrativa. Pedem cumplicidade. Para isso se realize em algumas situações, a literatura lança um barco em alto mar. Nele, o leitor navega solitário com remos que próprio cria no movimento das águas. Este barco pode ser ''A Quarentena'', romance do escritor francês J.M.G. Le Clézio.
Avançando em suas páginas o leitor é invadido pelas salgadas águas do Oceano Índico, pelos ventos que enchem os olhos de praias, pelas pedras vulcânicas que machucam os pés, pelos gritos dos pássaros que protegem seus ninhos, pelas noites estreladas ao som da solidão mais simples e natural em sua forma poética.
Na aventura de ''A Quarentena'', obra publicada pela Editora Companhia das Letras, um navio segue, no final do século 19, a caminho de Maurício, ilha de colonização francesa localizada no Oceano Índico próxima a Madagascar. Os irmãos León e Jacques estão a bordo na tentava de rever seus antepassados. A maioria dos passageiros é formada por imigrantes indianos destinados ao trabalho semi-escravo dos engenhos de açúcar da ilha. No meio do caminho alguns tripulantes são abatidos pela varíola. Temendo uma epidemia, o navio britânico abandona seus passageiros numa pequena ilha vulcânica e despovoada chamada Plate.
Nesta ilha selvagem, permanecerão em quarentena enfrentando uma áspera aventura pela sobrevivência. Atacados pela varíola, cólera, tifo, sem medicamentos, escassez de alimentos e água potável, viverão numa ilha dividida ao meio - de um lado um pequeno grupo de civilizados europeus, do outro, a grande massa de imigrantes hindus. A beleza da natureza de Plate e as mortes causadas pela epidêmica caminham lado a lado.
Os personagens mágicos são León e Suryavati. León, em suas andanças pela ilha, encontra a indiana Suryavati que acompanha a morte da mãe nas areias da praia. Apaixonam-se. A relação entre eles torna-se grandiosa. Na realidade trata-se de um belo triângulo amoroso: León, Suryavati e a natureza da ilha. León abandona seus laços civilizatórios para cair nos braços da natureza e nos seios de Suryavati. Seu passado é queimado nas piras em que são cremados os que padecem da epidemia.
Le Clézio, aos 66 anos de idade, é cultuado como o maior escritor vivo da literatura francesa. Foi objeto de estudo de Gilles Deleuze em um dos textos de seu último livro, ''Clínica e Crítica''. Admirado em toda a Europa, publicou mais de 30 livros - romances, ensaios e poesia. Entre seus romances editados do Brasil se destacam ''À Procura do Ouro'' (1985) e ''Deserto'' (1987), além do um ensaio biográfico ''Diego e Frida'' (1994) sobre a tempestuosa relação amorosa entre os pintores mexicanos Diogo Rivera e Frida Kahlo.
Em ''A Quarentena'', Le Clézio trabalha com várias narrativas paralelas. O enfoque principal, o exílio na ilha - o romance propriamente dito - narrado por León; a história de Ananta, mãe de Suryavati, em sua fuga da sanguinária guerra ocorrida no interior da Índia; a voz do próprio autor em dois tempos, um em que imagina o encontro do próprio avô com Arthur Rimbaud, e outro, em que viaja para a ilha de Maurício para conhecer Anna, a última remanescente da família que vive como louca no asilo de um convento. Partindo da biografia de seus antepassados que viveram em Maurício, o escritor cria uma obra onde ficção e realidade percorrem o intrincado universo da memória. A ligação das narrativas é realizada a partir de um cruzamento geográfico.
O que se destaca no texto de Le Clézio é sua delicadeza poética em erguer uma amorosa oração à natureza, relembrar a capacidade das pessoas encontrarem o mais íntimo de seus destinos. E apresentar, ao mesmo tempo, dentro da utopia como ilha, que o desrespeito ao semelhante se figura como o grande pilar do poder.

Serviço:
- Livro ''A Quarentena'', de J.M.G. Le Clézio. Editora Companhia das Letras, tradução de Maria Lúcia Machado, 364 páginas, R$ 42,00.

mockup