LEITURA - Uma imensa tristeza de contentamento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
É como se existisse um observador invisível flutuando sobre a cidade. Um sujeito que tudo vê, tudo percebe, e escolhe apenas algumas coisas para contar. Sua voz assemelha-se a um quebra cabeça de fatos e acontecimentos. Um jogo onde cada parte isolada nada representa, mas quando colocadas lado a lado, tudo se configura.
Um observador que se propõe a contar a história de uma tradicional família americana. Não apenas contar, mas retirar suas suntuosas vestimentas e deixar o sol bater em algumas partes da pele. Uma parte do ombro, uma das pernas, um pedaço do seio, a discreta região do umbigo. Pequenas partes que dão forma ao todo.
Esse observador invisível é o narrador de ''A Crônica dos Wapshot'', romance de John Cheever que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras em formato de bolso. A ele cabe contar, ao ouvido do leitor, a história de uma família em processo de decadência camuflada. Riqueza e nobreza escorrendo pelo ralo. Soberba e orgulho numa piscina vazia em ruínas. O sentimento aristocrático de imigrantes com calos nas mãos.
''A Crônica dos Wapshot'' foi o primeiro romance escrito por John Cheever, que ficou mais conhecido como contista do que como romancista. Publicado originalmente em 1958, a obra recebeu o prêmio National Book Award e apresentou a literatura do escritor ao grande público.
A família Watshop retratada pelo autor é formada pelo casal Leander e Sarah, os filhos Moses e Coverly, e a matriarca Honora. Imigrantes ingleses, possuem uma tradição pintada pelo verniz da aristocracia, vivem em processo de decadência monetária, mas sustentam uma vasta coleção de narizes empinados.
Leander, em ritmo de aposentadoria, pilota um belho barco de turistas. Sarah gasta o tempo com festas filantrópicas e sonha em abrir uma loja de bibelôs. Honora, dona de todo dinheiro da família e ranzinza inveterada, impõe um amplo leque de condições para que sua fortuna seja herdada. Moses e Coverly, dois jovens que, entre desejos ocultos, precisam realizar uma longa jornada para provarem que merecem a herança.
''A Crônica dos Wapshot'' é apontada por alguns pesquisadores como uma referência ficcional sobre relações familiares. O narrador assume a forma de um observador invisível que flutua sobre os acontecimentos cotidianos e, ao mesmo tempo, aos acontecimentos interiores de cada membro da família.
O foco principal de John Cheever está em trazer à tona a visão de que os velhos da família não mudam, não estão abertos a nenhum tipo de mudança, não estão em formação. Estão prontos e cristalizados. Os dois jovens, por outro lado, realizam caminho contrário. Abertos a mudanças e novidades, exercitam o processo de formação, de construção de si mesmo longe das amarras maternas e paternas.
A ironia que John Cheever insere na narrativa é sumária. Os jovens, apesar das experiências individuais, ousadas ou secretas, com o tempo se revelam cópias fiéis dos pais, tias e avós. Não há rompimento, há a continuidade travestida com lantejoulas liberais e acordos fraternos.
A biografia de John Cheever, nascido em 1912, é curiosamente dividida em duas partes. A primeira diz respeito às informações sobre sua existência enquanto ainda vivo. A segunda diz respeito às informações que surgiram após sua morte ocorrida em 1982.
Até morrer, Cheever era o exemplo de bom sujeito. Arrimo de família responsável, marido fiel, pai dedicado, enfim, um sujeito de vida exemplar, sempre na linha. Após sua morte, com a descoberta de seus diários, a coisa mudou de figura. Sua própria filha se encarregou se escrever sua primeira biografia e a publicação de fragmentos dos diários.
As novas informações reveladas apontam para um homem completamente oposto àquele que ele apresentava socialmente. Marido infiel, pai irresponsável, detentor de forte inclinação homossexual, alcoólatra inveterado propenso a violências domésticas e outras coisas mais. A idéia mais imediata seria que ele teria construído uma fachada para si mesmo. Uma fachada muito parecida com aquela descrita em seus contos, onde os gestos mais representativos de um ser humano estão vinculados a detalhes ocultos.
Um sujeito que tudo vê, tudo percebe, mas escolhe apenas algumas coisas para contar. Uma voz que parece uma imensa tristeza de contentamento.
Serviço:
A Crônica dos Wapshot
Autor - John Cheever
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Alexandre Barbosa de Souza
Páginas - 312
Quanto - R$ 25,00
Fragmento:
Agora o mundo era cheio de distrações - mulheres adoráveis, cinema francês, pistas de boliche e bares - mas a Coverly faltava a imaginação para se distrair. Foi trabalhar de manhã. Voltou para casa quando estava escuro, trazendo uma refeição congelada que ele descongelou e comeu direto na embalagem. Sua realidade parecia atacada ou contestada; seu dom para a esperança parecia prejudicado ou destruído. Existe um provincianismo em alguns tipos de angústia - um distanciamento geográfico como de uma vida passada num posto de encruzilhada -, um ponto onde a vida é vivida ou suportada com o mínimo de energia e de percepção e por onde o mundo quase sempre passa rapidamente como passageiros dos trens de Santa Fé. Uma vida assim possui suas compensações - solitária a contemplar estrelas - mas é uma vida desprovida de amizade, associações, amor e até mesmo da factível esperança de fuga.
(Fragmento de ''A Crônica dos Wapshot'', de John Cheever)


