Algo como um pequeno e delicado sol dentro de casa. Toda vez que alguém tenta tocá-lo com carinho, experimenta desapontamento e frustração. A mão, que espera por calor, sente apenas frieza. Um sol de gelo.
A idealização de um sol se assemelha a idealização de um filho. Entre a criança idealizada e a criança real nasce um vale de desilusões. As expectativas da maternidade, e da paternidade, tendem a criarem lacunas que nunca podem ser preenchidas por completo.
Esse território delicado onde a ideia convencional de filho pode cair por terra é o tema de "O Filho Antirromântico", livro da professora norte-americana Priscilla Gilman lançado pela editora Companhia das Letras.
A obra compreende um relato autobiográfico da experiência da autora com filho Benjamin, diagnosticado como portador de hiperlexia (transtorno de desenvolvimento associado ao autismo) nos primeiros anos de vida. O que difere "O Filho Antirromântico" de outros livros sobre crianças portadoras das mais variadas síndromes contemporâneas, é a abordagem desenvolvida por Priscilla Gilman.
Professora de literatura romântica e pesquisadora da obra do poeta inglês William Wordsworth (1770 – 1850), Priscilla utiliza a poesia de Wordsworth como instrumento subjetivo para entender a maternidade e a síndrome do filho. A princípio, a ideia romântica de criança, e de filho, simplesmente não encontra eco no bebê que ela deu a luz. A criança não corresponde à imagem romântica de filho, aquela coisa fofinha para abraçar e beijar.
Uma das características das crianças portadoras de hiperlexia é a inabilidade social de relacionamento, dificuldade de socialização e de interação com outras pessoas. Há também uma precocidade em ler palavras e números, mas, ao mesmo tempo, dificuldade de entendimento da linguagem verbal. O isolamento, corporal, mental e social torna-se fatal.
"O Filho Antirromântico" traz o drama de uma mãe diante de uma criança que não corresponde a normalidade idealizada de filho. Percorre um território semelhante ao universo visitado pelo escritor Cristovão Tezza no romance "O Filho Eterno" (Record, 2007) e pelo jornalista Andrew Solomon em "Longe da Árvore" (Companhia das Letras, 2013).
Um assunto que há pouco tempo permanecia restrito aos quartos e salas passou ganhar a visibilidade das ruas. A ideia de filho que floresce na cabeça de mães e pais (seja por elementos simbólicos ou psicológicos, seja por convenções sociais ou culturais), nem sempre corresponde à criança real, aquela que se materializou independente da imaginação. Com o desenvolvimento da medicina e da genética, essa questão está se tornando cada vez mais visível.
Uma das questões colocadas pela autora é expressa com as seguintes palavras: "Como valorizar seu filho em uma cultura cujas referências de realização e cujos padrões de avaliação e comparação de crianças são tão desalinhadas com nossos próprios valores e com a pessoa que nosso filho é?"
Nesse processo de entendimento do próprio filho, Priscilla Gilan, que até então enxergava na poesia de William Wordsworth apenas a imagem da "criança romântica" (bebês abençoados, crianças serelepes, vivendo entre sorrisos e brincadeiras lúdicas), passa a ver que nos mesmos versos do poeta existiam sinais de "crianças não românticas".
Em uma nova leitura, ela passa a encontrar nos poemas outros elementos: "Crianças estranhas, com obsessões estranhas, que frustram as expectativas dos adultos, que veem o mundo de maneira única e misteriosa, que existem em desacordo, sob muitos aspectos, com sua cultura, que são incomuns, vulneráveis e solitárias, e que anseiam escapar dos limites da sociedade convencional."
No final do livro surge a questão: mudou a poesia ou mudou a mãe? E a resposta é comovente. Mudou tudo, a maternidade, a infância, a poesia, a vida, os valores e tudo mais. Tudo a partir de um filho que não corresponde ao ideal, seguro e estável, de normalidade. Uma ilha de força em um mar de fraquezas. Uma ilha com a aurora de um sol frio resguardando uma pulsação aquecida. Um mistério. Uma devoção.

SERVIÇO
"O Filho Antirromântico"
Autora – Priscilla Gilman
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Caroline Chang
Páginas – 354
Quanto – R$ 39,90

Não houve nada de pacífico ou etéreo naqueles primeiros meses com essa criança estranha. Ele não era de modo algum chegado a um aconchego – na verdade, era tão esquivo que eu só o pegava no colo para amamentá-lo. Ficava mais tranquilo e satisfeito sozinho numa cadeirinha. Ele não costumava virar a cabeça na direção de uma voz, mas ficava muito surpreso, até perturbado, ao ouvir sons baixos. Todo seu corpo tremia quando uma porta era batida e o som de um liquidificador podia induzi-lo a uma espécie de pânico. Minhas palavras tranquilizadoras e meus chamegos carinhosos pareciam não ter efeito sobre ele. Amamentar foi algo agonizantemente difícil. Benjamin não aconchegava o corpinho junto a mim; ficava enrijecido e nunca me olhava, nem me dava indicação alguma de que eu fosse para ele qualquer outra coisa que não uma fonte de alimento. Perseverei com a amamentação, mas cada mamada, era menos momentos de conexão do que tentativas muito tensas de acalmá-lo para que ele permanecesse no seio. (Fragmento de "O Filho Antirromântico", de Priscilla Gilman)
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