LEITURA - Uma desajeitada história de amor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
É um romance que nunca esteve na lista dos mais vendidos e jamais recebeu um mísero prêmio literário. Mesmo assim pode ser considerado um livro de sucesso. Aquele tipo de sucesso discreto e silencioso concedido por leitores anônimos.
"Pergunte ao Pó", romance do escritor norte-americano John Fante (1909 1983) acaba de ganhar uma nova edição, pela editora José Olympio, com nova capa. Trata-se da décima terceira edição brasileira. Uma cifra surpreendente para o mercado editorial brasileiro.
Publicada originalmente em 1939, é considerada por muitos leitores como a obra prima de John Fante. Ganhou sua primeira edição no Brasil pelas mãos da editora Brasiliense, em 1984, com a lendária tradução de Paulo Leminski. Hoje essa edição é coisa rara e atinge preços desencorajadores nos sebos.
O grande divulgador de "Pergunte ao Pó" foi o escritor Charles Bukowski (1920 1994). No prefácio do romance assinado por ele, conta como entrou em contato com a obra de Fante. Vasculhando as estantes das bibliotecas públicas, Bukowski não encontrava nada interessante: "Nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. Parecia que todo mundo estava fazendo jogo de palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados excelentes escritores. O que escreviam era uma mistura de sutileza, técnica e forma, e era lido, ensinado, ingerido e passado adiante."
Ao pescar um exemplar de "Pergunte ao Pó" da estante, Bukowski encontrou um autor que influenciaria sua escrita por toda a vida: "Como um homem que encontra ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através das páginas, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E ali, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim."
O romance narra uma desajeitada história de amor. O narrador, Arturo Bandini (personagem protagonista de vários romances e contos de Fante) é um jovem escritor pobretão em início de carreira que se apaixona por Camilla Lopez, uma jovem mexicana que trabalha como garçonete em um bar de Los Angeles. O problema é que Camilla é apaixonada pelo barman do lugar, que a despreza como uma cadela sarnenta.
Arturo Bandini é um personagem peculiar. Sujeito impulsivo contumaz, vive todo tipo de contradição. Sente uma espécie de eterno arrependimento e é constantemente atormentado pela culpa cristã. Seus gestos passam do cômico para o trágico num segundo. Quando faz algo certo, acha que fez algo errado. Quando faz algo errado, acha que fez algo certo. Com humor, cria uma ode à antiestima na tentativa adubar sua autoestima. Enfim, um personagem extremamente humano, emotivo e repleto de contradições cômicas e trágicas.
A narrativa de John Fante é pautada pela simplicidade e pela oralidade. Uma das grandes sacadas de sua escrita está em colocar, numa mesma frase, aquilo que acontece na imaginação do personagem e aquilo que acontece de fato, na realidade. Dois mundos que se tocam na alegria e na tristeza, na dor e no prazer.
O título da obra remete ao sentido bíblico de que o mundo teria nascido do pó e ao pó retornaria. A história narrada percorre um processo de conquistas difíceis e conturbadas. Um processo que, ao chegar ao final, remete ao seu início. Ou um novo início.
Serviço:
"Pergunte ao Pó"
Autor John Fante
Editora José Olympio
Tradução Roberto Muggiati
Páginas 208
Quanto R$ 35


