Quando um sujeito tem alguma coisa a dizer e as palavras não conseguem permanecer calmas dentro de sua boca, ele fala. Quando um sujeito tem alguma coisa a dizer e as palavras sangram sua garganta, destroçam seus dentes, ele grita.
Nos últimos anos, os blogs da internet tornaram-se uma maneira simples e direta de uma multidão de sujeitos converterem vozes agitadas e berros guturais em palavras lúcidas. No meio dessa multidão o escritor e dramaturgo londrinense, radicado em São Paulo, Mário Bortolotto merece destaque.
Em 2003 criou o www.atirenodramaturgo.zip.net, um blog pessoal onde apresentava, além de sua particular visão de mundo, divagações do cotidiano e um punhado de informações sobre literatura, música e cultura. Agora, três anos depois, uma coletânea de textos publicados originalmente no blog acaba de ganhar formato de livro.
Lançado pela Atrito Art Editorial, ''Atire do Dramaturgo'' é uma seleção, realizado pelo próprio autor, dos melhores textos postados no blog homônimo. A principal característica dos escritos de Bortolotto está em abolir, sem nenhum tipo de escrúpulos, a condescendência perante a mediocridade em todos seus múltiplos e dissimulados níveis.
Os escritos de ''Atire do Dramaturgo'' deixam evidente uma das principais peculiaridades da literatura de Bortolotto, principalmente aquela presente em sua dramaturgia: a capacidade de inserir, no interior da acidez das palavras, uma sutil e acolhedora possibilidade de suavidade. Um tipo de condução narrativa que trabalha com a idéia de que toda rigidez possui algum discreto elemento maleável. Que em toda violência possui um inaudível pedido de calma. Que toda aspereza guarda em seu sono alguma febre de suavidade. Tudo nada evidente. Coisas que destroçam os dentes, sangram a garganta, tumultuam a boca, e mesmo assim, se agem como se nada estivesse acontecendo.
Os apontamentos dos escritos de Mário Bortolotto parecem dizer que, quando as pessoas conseguem respeitar o foco de visão de seus próprios olhos, longe do imediatismo do olhar rasteiro, as máscaras perdem toda e qualquer função. Nada mais do que um velho guarda-chuva na tempestade. Nada mais do que crônicas caminhando pelas ruas da atualidade vestindo roupas do avesso. Confira a entrevista que Mário Bortolotto concedeu à Folha2.

Quando você criou o blog (www.atirenodramaturgo.zip.net), havia algum interesse ou objetivo específico?
Na verdade não. Eu admirava os textos de alguns amigos na internet e percebi que tendo um blog poderia escrever sem o compromisso do texto definitivo, da obra pronta. Achei que era um lugar onde eu poderia experimentar. Uma espécie de ''work in progress'' para um trabalho mais maduro. Aí comecei também a indicar discos, livros, falar dos trabalhos dos amigos. Acabei fazendo algo parecido com o que eu fazia na ''Folha de Londrina'' ,no início da década de 90, e que resultou no livro ''Gutemberg Blues''. A diferença é que no blog eu não tenho editor e se eu quiser simplesmente escrever sobre uma noite de bebedeira ou sobre o fato de ficar o dia inteiro sem fazer nada, deitado na rede e coçando o saco... Bem, no blog eu posso fazer isso. Há uma liberdade que eu não havia encontrado em nenhum outro veículo.

Você considera que, nos últimos anos, os blogs se transformaram num reduto de informações que não encontram espaço nos meios impressos?
Claro que sim. Os autores podem realmente dizer o que pensam e escrever sobre o que querem. Não há pressão de editores, patrões ou anunciantes. A verdade está nos blogs, pelo menos por enquanto.

Nos textos de ''Atire no Dramaturgo'' você expõe um ponto de vista particular do mundo. Você acha que seria possível fazer uma distinção entre auto-expressão e a defesa de uma visão de mundo?
Acho difícil. Se eu quero me expressar e tenho liberdade pra isso, naturalmente vou passar minha visão de mundo que é extremamente pessoal e sincera. E concordando ou não com o autor, não há como negar que é reconfortante ver alguém falando com sinceridade.

Em vários textos você defende o argumento de que as pessoas devem fazer o que bem entenderem desde que não torrem o saco do próximo. Você acredita que dessa maneira a existência seria mais suportável?
Acho que é o único jeito. A vida já é um fardo difícil de carregar, se você começa a fazer muitas concessões ela vai ficar naturalmente insuportável.

Mesmo sem utilizar a palavra ''fé'', o sentido da palavra aparece em vários momentos do livro, especialmente em relação aos altos e baixos da vida. Qual a sua visão da fé?
Eu sou católico. Aprendi a ter fé desde criança. A acreditar em algo que não é possível tocar e nem ver. Algo em que é possível se agarrar quando tudo parece estar irremediavelmente perdido ou quando tudo parece estar bem demais pra ser verdade. É preciso tomar cuidado com isso pra não cair numa esparrela de auto-ajuda ou crendice mística. Não tem nada a ver com isso.

Várias de suas obras não nasceram inicialmente na forma de livro. Nasceram como peças teatrais, textos publicados em jornais e escritos originalmente divulgados em blog. Existe algum significado para esse processo?
Não. É que eu gosto de escrever, só isso. Vou escrevendo e não sei muito bem o que vai acontecer com aquele texto. De repente eu percebo que tenho uma peça de teatro no meu computador, ou então os versos de um poema que podem se transformar num conto. O conto pode virar roteiro depois ou pode ser adaptado para uma peça de teatro. Queria ter mais disciplina. Queria pensar, vou agora escrever um livro e ficar lá trabalhando no livro. Não consigo, sou muito disperso. Começo a escrever um livro e fico com vontade de rever um filme, aí aquele filme me leva a ouvir um determinado CD que faz com que eu sinta vontade de escrever um poema ou simplesmente falar sobre a experiência única que foi ter acabado de ouvir aquela música. Aí vou lá e escrevo. E o que seria o livro fica lá esperando. Mas depois todos esses escritos dispersos acabam se tornando um outro livro. E a escrita sobrevive. E é isso que importa. No fundo, é só isso que importa.

Serviço:
- Livro ''Atire no Dramaturgo'' de Mário Bortolotto. Atrito Art Editorial, 240 páginas, R$ 30,00.

mockup