Diante dos olhos, é possível classificar as coisas pelo tamanho. As grandes e as pequenas. No campo dos sentimentos humanos as coisas são capazes de trocar de lado sem alarde. Como se atravessassem um rio para tomar sol na outra margem. Nesses momentos, a memória assume a forma de um lençol branco estendido ao vento. Um tecido registrando a intensidade da travessia.
As pequenas coisas que atravessam o rio e se transformam em grandes coisas marcam presença em ''O Deus das Pequenas Coisas'', romance da escritora indiana Arundhati Roy. Lançado em formato pocket pela editora Companhia das Letras, a obra mostra como as denominadas ''pequenas'' coisas se acumulam, uma sobre as outras, para formarem as chamadas ''grandes''.
''O Deus das Pequenas Coisas'' narra a história dos gêmeos Estha e Rahel acompanhada pela tragédia que arrasta cada membro da família. Vivendo colados um ao outro, sempre utilizando ''nós'' em vez de ''eu'', os dois são separados com sete anos de idade. Cada um é empurrado para uma solidão particular. O romance parte de um reencontro, décadas depois, para apresentar um passado de cada um e de toda a família.
Separados pela morte acidental de uma prima, abalados por terem sidos forçados a mentir para condenar um homem inocente pelo crime, o garoto Estha e a menina Rahel entram em parafuso. Para sobreviverem ao drama, passam a povoar seus interiores com alguma invenção. Rahel escolhe instalar um vazio dentro de si, deixar sua existência à deriva. Estha opta por afogar-se no silêncio, abolindo o uso das palavras na tentativa de alcançar alguma quietude.
Fazendo uso de elementos autobiográficos, Arundhati Roy, que antes de se dedicar à literatura atuou como atriz e roteirista do cinema indiano, coloca como pano de fundo os acontecimentos sociais e políticos da Índia no final dos anos 60, quando o movimento sindicalista de base marxista começa a ganhar força no país.
Apesar de ser seu romance de estréia, que acabou recebendo o prêmio Booker de 1997, a autora realiza uma narrativa surpreendente onde intercala presente e passado. Coloca uma delicada névoa nos acontecimento para em seguida instaurar um vento para dissipá-la. Deixa nua a tragédia familiar para poder constatar que o ser humano não pode sentir a morte, apenas o fim do viver: ''Às vezes a memória da morte vive por muito mais tempo que a memória da vida que ela roubou''. ''O Deus das Pequenas Coisas'' é um relato melancólico vestido com os tecidos da angústia. Uma vez gravada na pele das personagens, adultos ou crianças, a dor ocupa um espaço cativo em suas mentes que ecoa em todo o corpo, em todos os sentidos.
Arundhati faz uso da metáfora do eterno retorno, com o amor causando sofrimento e o sofrimento impulsionando o amor. Uma história circular. Os gêmeos conheceram a felicidade no útero da mãe. Separados pelo parto, passam a infância procurando construir um útero novo no mundo externo. O drama é que o mundo não admite este tipo de refúgio e vive procurando destruir qualquer tentativa nesse sentido. Depois de adultos, com os corações inchados de vazio, resolvem voltar às origens entregando-se um ao outro. O que seria uma possibilidade de felicidade torna-se o início de um sofrimento dentro das instáveis leis do amor.
Utilizando referências da arte Kathakali, a narradora de ''O Deus das Pequenas Coisas'' parece dizer que viver é estar consciente das possibilidades de dores e amores. As surpresas são coisas que passam despercebidas, mas colocam os joelhos no chão para serem percebidas.
O romance é narrado por Arundhati através de uma percepção feminina de sentimentos universais. As regras sociais esmagando os sentimentos infantis e adultos, e as desgraças caindo sobre as cabeças sem motivo aparente. Na realidade, os motivos não são motivos, são motores que impulsionam a vida para frente. Ou para trás.

SERVIÇO
- O Deus das Pequenas Coisas
Autora - Arundhati Roy
Editora - Companhia das Letras
Tradução - José Rubens Siqueira
Páginas - 360
Quanto - R$ 23,50

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