LEITURA - Um punhal na escuridão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Ele foi responsável pelo maior consumo de reticências de toda a história da literatura. Em alguns de seus romances, como ''Norte'' e ''Morte a Crédito'', é possível encontrar uma média de 50 reticências por página. Levando-se em conta que seus livros possuem mais de 500 páginas, não é difícil imaginar sua obsessão pelos três pontinhos.
Mas não foi pela sede de reticências que o escritor francês Louis-Ferdinand Céline se tornou uma referência da literatura do século 20. Foi por sua escrita completamente iconoclasta e pessimista, um retrato pouco agradável de um tempo repleto de dores.
Para Louis-Ferdinand Céline (1894 - 1961), a covardia é um glorioso ato heróico. Para ele, todas as aventuras da coragem, uma hora ou outra, caem por terra. A coragem, mais cedo ou mais tarde, sempre encurrala suas conquistas no beco sem saída do vazio. Uma espécie de jogo sem regra definida em que, independente do jogador, a vitória é uma conto de fadas com um belo enredo de conto do vigário.
Esse elogio da covardia aparece em estado puro em ''Viagem ao Fim da Noite'', primeiro romance escrito por Céline e sua grande obra prima. Uma narrativa polêmica onde os sentimentos pouco nobres são expostos como quem coloca uma fruta podre numa bela fruteira. ''Viagem ao Fim da Noite'' foi publicado no Brasil em 1994 e logo desapareceu das livrarias. Agora a editora Companhia das Letras está lançando uma nova edição da obra em formato de bolso.
A história de ''Viagem ao Fim da Noite'' se passa entre o período entre 1914, quando a Primeira Guerra Mundial tem início, e 1930, quando a Europa tenta superar a crise apostando na modernidade. O personagem principal, o jovem Ferdinand, é claramente o alter-ego de Céline. Ferdinand entra no exército como se estivesse entrando numa sorveteria. No campo de batalha, vendo a morte cotidianamente se esfregando em seu corpo, elege como certeza que apenas com covardia conseguirá esperar pelo fim. O romance reproduz uma sensação que se manifestava em todos os homens tocados violentamente pelas atrocidades da guerra.
Ferdinand, enlouquecido pela constante presença da morte, pula fora do barco. Empreende uma fuga, percorrendo cidades e cidades atormentado pelo fantasma materializado da dor. Não procura mais nenhum sentido para a vida, pois sabe que todos os sentidos foram massacrados, enterrados em valas comuns. Passando uma borracha no amor próprio, fica livre de um dos grandes pesadelos da existência. O cinismo, então, torna-se uma arma de proteção.
Além da temática considerada maldita, ''Viagem ao Fim da Noite'' também possui uma linguagem original. A narrativa desenvolvida por Céline utiliza a pontuação para reproduzir a oralidade do cotidiano e os pensamentos entrecortados e desconexos do personagem principal.
A vida de Céline foi coroada tanto por uma camada de glória como uma camada de lama. A Primeira Guerra estourou quando ele prestava o serviço militar em 1914. Com 18 anos de idade, foi jogado no campo de batalha e teve as piores experiências de sua vida. As sequelas, como insônias, enxaquecas e problema de audição, o acompanharam por toda a existência. Médico sanitarista, passou grande parte da vida trabalhando num posto de saúde da periferia de Paris. A partir de 1937 começou a publicar panfletos anti-semitas e colaborar com jornais pró-nazistas. Nunca foi perdoado por essa mancha em sua biografia. Foi tanto amado por sua literatura como odiado por suas posições autoritárias e preconceituosas. A noite de Céline nunca teve fim.
Serviço
- 'Viagem do Fim da Noite'
Autor - Louis-Ferdinand Céline
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rosa Freire d'Aguiar
Quanto - R$ 29,50 (536 pág.)
'Viver na austeridade, que maluquice! A vida é uma sala de aula cujo bedel é o tédio, que aliás está ali o tempo todo a nos espiar, temos que dar a impressão de quem está fazendo, custe o que custar, algo apaixonante, senão ele chega e lhe devora o cérebro. Um dia, que nada mais é do que uma simples jornada de vinte e quatro horas, é intolerável. Deve ser apenas uma longo prazer quase insuportável, um longo coito, o dia, por bem ou por mal.
Vêm-nos assim ideias horrendas enquanto estamos obcecados pela necessidade, quando em cada um de nossos segundos é esmagado por um desejo de mil outras coisas e de outros lugares'.
(Fragmento de 'Viagem ao Fim da Noite' de Louis-Ferdinand Céline)


